As Quatro Voltas:


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Original: Le Quattro Volte
País: Itália/Alem/Suíça
Direção: Michelangelo Frammartino
Elenco: Giuseppe Fuda, Bruno Timpano, Nazareno Timpano.
Duração: 88 min.
Estréia: 21/12/2012
Ano: 2010


Uma das maiores estreias dos últimos tempos


Autor: Cid Nader

As Quatro Voltas, filme estranho ao mundo do cinema atual (na realidade, estranho ao cinema de mais variados tempos), dirigido pelo italiano Michelangelo Frammartino, causa vários mistos de sensações durante seu transcorrer - que avolumam após, e exigem calma para a explanação sobre o que suscitou. Dentro do contexto de uma “Mostra Internacional de Cinema” (o texto foi feito durante o evento de São Paulo, em 2010), que tem quase que por linha obrigatória a busca de cinemas que fujam da mesmice desses do cotidiano, muitas vezes deparamos com obras que insistem em falhas básicas (pela fuga de boas execuções estéticas ou técnicas como que querendo representar rebeldia ao comum - e convenhamos, o bom "grito" contra o comum deve ser mais belamente entoado ainda, para poder ser "comprado" como ideia válida), mas com a compensação de revelarem realizadores e tendências importantes surgindo, vez por outra, mesmo pagando os preços das apostas.

Lá me vou à última oportunidade de ver ao filme na tela grande, após o excesso de expectativa gerado por amigos, e a natural prevenção quanto ao resultado (é quase regra: excessos de expectativas tendem a diminuir o potencial do filme alardeado - e vice-versa) aparece como camada inibidora de um mergulho mais de peito aberto ao que transcorre, serena e placidamente projetado. Certo, no momento - de assimilação imediata, já que era coisa que dispensava coisas além do olhar correto sobre as estruturas imaginadas -, é que pude ir constatando o notável e admirável rigor empreendido por Frammartino nas opções e maneiras pelas quais captou as imagens, e na qualidade delas editadas: dentro de encadeamento narrativo que não facilitava, ao mesmo tempo que ostentava momentos sublimes. Momentos sublimes de edição que fazem pensar até agora em como foi possível um plano-sequência (de 5, 7 minutos), por exemplo, onde o cachorro (pastor das ovelhas de um velho, doente) parece cumprir toda uma desejada carreira de acontecimentos, que se revelam entre engraçadas e causadoras de admiração por ele (o cachorro), mas extremamente improváveis para fazerem parte daquele momento imenso sem que os cortes e as costuras pudessem ser cúmplices: valendo ressaltar, que de dentro dessas improbabilidades obtidas (como fatores de sorte ou naturalidade de ações instintivas), sobressai de forma quase singela a beleza do posicionamento correto da câmera, num vértice alto, que faz sempre, e por poucas vezes, movimento pendular; valendo ressaltar, ainda dentro desse momento, a construção de momentos interessantes que levam do terreno, plano com cabras cercadas e um caminhãozinho perigosamente parado (veículo que é o principal personagem do filme), ao morro que acabará encravado com cruzes.

É nítido e óbvio que a opção da utilização das lentes vai além desse plano-sequência, para se oferecer como o olhar curioso do espectador descobrindo a geografia da vila secular (na Calábria) que serve de cenário para o trabalho, de seu entorno, de suas altas montanhas, das pessoas velhas que insistem em morar num lugar que parece abandonado pelos mais jovens: e aí reside um elemento que cresce com as horas do filme na retina, pois nota-se que a observação de região que não atrai os desejos mais modernos de vida serve como alerta à modificação de subsistência num país ocidental que opta pelo turismo, por exemplo, como um dos melhores meios de sustento, “fazendo” a volta da juventude a tais paragens somente pelo aspecto pitoresco de uma festa - a da árvore, que gerou também outros belos planos de observação, que vão da derrubada do enorme pinheiro até sua transformação em carvão, passando pela festa como o objeto principal, mas já sem vida. As Quatro Voltas consegue captar, e passar, o antagonismo nas opções de viver - a do pastoreio solitário de cabras, a da diversão por festa estranha, ou, numa escala maior e mais perigosa para a região abandonada, a transformação de parte de suas matas em carvão vegetal (estaria tal momento do filme - que o abre e o fecha - como denúncia ou queixa) -, e pensá-lo assim (fato que só amadureceu com o passar das horas) potencializa suas qualidades, afastando-o de ser compreendido somente como belo pacote bem realizado, embalado por "pitoresquices" de ações (que, se fosse assim, poderiam ser lembradas pela falta de diálogos, pelos atos "meio insanos do velho pastor" - que bebe água com terra para se curar, ou que vê seus caracóis escapando estranhamente da panela -, pelo olhar bucólico mas "cartão postal" para a região...).

E, na realidade, o que o trabalho parece não querer ser é algo que incentive a observação pitoresca. Se não há diálogos é porque os motes filmados dispensam a fala: os sinetes das cabras falam por si, os latidos do cachorro dizem o que o momento pede, as imagens - também belamente feitas e de texturas raras - das cabras sendo observadas caminhando por "estradinhas" estreitas, uma com luz plena e outra próxima do anoitecer, já significam tudo o que signos orais não conseguiriam. O nascimento de um filhote e sua luta para se por em pé ultrapassam a atenção fria (ou curiosa, ou... pitoresca) de programas sobre coisas rurais e a natureza, pois ali, todos os elementos são de importância similar ao olhar do diretor. A "Festa da Árvore", e sua sequência (que leva ao destino da madeira), tem muito mais a informar do que somente a curiosidade comum necessitaria.

E, na realidade, com mais calma, já no dia seguinte, se estabelece a quebra entre a ficção e o documental (como modos de linguagem adotados), que aparentemente estancavam em partes isoladas setores do filme, para que a memória dele se faça por junções bem menos rígidas, mais fragmentadas, mais cinematográficas (no sentido de cinema como a arte da boa qualidade das imagens e de suas manipulações), indicando que o controle de Michelangelo Frammartino sobre o que fez era total - deixando como legado algo inédito (não pelas primeiras aparências, nem pelas coisas óbvias vistas como inusitadas, mas justamente pela diluição das barreiras entre a ficção e o documento, mantendo óbvio o que quis dizer) em sua configuração final.

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