Onde a Coruja Dorme:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Márcia Derraik, Simplício Neto.
Elenco: Documentário
Duração: 72 min.
Estréia: 02/11/2012
Ano: 2010




Autor: Cid Nader

Bezerra da Silva é um malandro carioca meio diferente do malandro original que por décadas construiu traços fortes do jeito de ser dos de lá. Nordestino e incrustado na região da Baixada Fluminense (daí, creio equivocada a alcunha de "malandro carioca"), tem traços de origem diverso daqueles dos morros do Rio cidade (normalmente negros ou portugueses mais empobrecidos), além de história e motivações mais cáusticas para contar. A região onde habita é de notável maior apelo à criminalidade, muito mais pobre, mais excluída e sem o "charme" enganador (enganador de estômagos e de misérias) dos morros com vista para o mar e cercados por mata atlântica, fazendo mais justificável o estilo de suas letras, e a pegada de seu samba.

Nos anos 80 o que ele fazia era definido pela crítica como "sambandido", algo que causava impacto e aversão simultâneos, conduzindo avaliações sobre seu trabalho e possíveis riquezas melódicas ou das letras com sofrer: seja pela empolgação dos fãs iniciantes, seja pela exclusão dos que imaginavam seu trabalho como algo duvidoso, como arte. Esse documentário tenta explicar um tanto das razões que fizeram Bezerra seguir tal estilo musical, tentando, também, fazer críveis elementos de comportamento dele e opiniões um tanto estranhas. O documentário se entrega muito reverencial ao tratar diretamente com o cantor. Aceita seus ditos (percebe-se isso pelo modo de edição adotado, que configura cenas claras e nítidas, sem interferências, sem situações que pudessem atrapalhar seus discursos), evita colocá-lo em sinuca ou em dúvida, carrega na simpatia evidente que sente pela figura (algo que até poderia ser compreensível quando se imagina alguém realizando algo sobre alguém por opção própria, mas que denota fraqueza, por não distanciamento necessário, se o caso fosse de realização com caráter mais "jornalístico", digamos).

Porém, os diretores, se erraram na reverência excessiva ante o ídolo, acertaram na maneira de exposição de alguns dos outros fatores responsáveis por seu sucesso. Além da autopropalada malandragem (faz cara de e discursa como um marginalizado, para as lentes), o cantor teve sempre por trás de si um "exército" de compositores e amigos (desafetos alguns?) que não enriqueceram como ele, que não alçaram à fama, e que se mantiveram fiéis às suas origens e a seus necessários empregos. São mecânicos, pedreiros, carteiros, que têm alma de artistas, sempre abastecendo o cantor. Quando frequentam a frente das lentes, o trabalho de Márcia e Simplício caminha bem mais fluido, mais rico e, principalmente (algo essencial. em docs) mais informador. Fica, ao final, sensação de indecisão deles (os diretores) sobre um rumo mais acertado a ser seguido: o que não compromete totalmente o filme, mas que impossibilita vê-lo como obra absolutamente necessária.

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