Corações Sujos:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Vicente Amorim
Elenco: Tsuyoshi Ihara, Takako Tokiwa, Eiji Okuda, Shun Sugata, Kimiko Yo, Eduardo Moscovis, Celine Miyuki, Issamu Yazaki.
Duração: 115 min.
Estréia: 17/08/2012
Ano: 2010


Há boas tentativas, em meio ao conformismo do modelo escolhido.


Autor: Cid Nader

O filme de Vicente Amorim, Corações Sujos, tão aguardado por um monte de gente, que conta um dos episódios mais incríveis e obscuros de nossa história recente (fato que só veio mesmo à tona e ao conhecimento geral na ocasião do lançamento livro de Fernando Morais, no qual é baseado) – sobre os japoneses do interior de São Paulo que não acreditavam na derrota de sua terra natal na Segunda Grande Guerra, muito menos na rendição do imperador (seu Deus), e que passaram a matar os que aceitavam a verdade, chamando-os de traidores – chegou às telas para cumprir a expectativa que deveria ser a mais acalentada pelos ansiosos: que era a da entrega de um trabalho, baseado nos parâmetros de superproduções, com tendências fortes ao melodrama. Nada mais do que isso era o que se desejaria, e o que se esperaria.

E quando a projeção inicia, com os primeiros takes evidenciados, enquanto a construção da banda sonora passa a se impor imperiosa como algo que retornara, e retornará, a cada “final de episódio” da trama, em crescendo paralelo a cada desfecho grandioso, a certeza dos caminhos imaginados ganha corpo para confirmar as verdades imaginadas. Todo ele será assim: um filme de momentos pontuados, com tramas individuais em si caracterizando quase que capítulos que funcionariam isoladamente, pelas cores fortes e closes destacando o sofrimento do momento, crescimento da música ininterrupta durante o ato, e conclusões que quase bloqueiam a fluidez necessária ao andamento de um trabalho único. Aí, já poderia destacar uma das situações em que o filme se safa de ser somente o “só comum aguardado”, pois esse cessamento de seções geralmente acaba levando um bônus, que estende as imagens para além do ambiente físico onde o ato se deu, emprestando no momento da costura um “alinhavamento” que impede em duas ou três sequências a repetição de um dogma tão comum a filmes do mesmo gênero de intenção dramática. Mas vale ressaltar que o que fica na memória é mais o comum, da estrutura chorosa, musicada e interrompida.

Os personagens não fogem ao padrão comum nesse tipo de empreendimento: são todos muito bem definidos já lá no roteiro, o que enfraquece virtudes que poderiam brotar de tamanha gama de sentimentos envolvidos em história tão contundente. Não que sejam obra de ato pura e simplesmente maniqueísta (não há só bons ou maus – há os enganados e os indecisos), mas são de composição muito dominada pela direção, sem que tal composição seja rica o suficiente para criar variantes dramáticas mais importantes.

Falar do excesso na música e na construção dos quadros estéticos soaria redundante: é proposta a ser seguida e executada no manual desse modelo. Estão presentes o tempo todo, quase de forma ininterrupta (nessas cartilhas também se sugere que a reconstituição de época seja primorosa – e Corações Sujos cumpre o sugerido), e acabam ofuscando algumas outras coisas que o filme tem de bom. Como nos casos das duas ou três sequências citadas acima, há boa tentativa técnica com lentes que parecem ser anamórficas (ou fazem parte da função que elas cumprem), que desconstroem os cantos de tomadas planas e largas (como se fossem borrões para caracterizar um momento bem pouco nítido, nublado, tal eram aqueles momentos naquelas vidas), boas cenas de embate (com câmera girando e se movimentando, criando na edição similaridade de confrontos épicos de clássicos do faroeste), e especificamente um instante bastante (mas bastante) bom, em que um “truque”, num mesmo quadro desfoca a imagem da mulher (do executor) que entra no momento em que acaba de ocorrer o primeiro assassinato, para deixar nítida somente a figura de Takahashi, o primeiro matador (e personagem principal do filme, interpretado pelo japonês autêntico, Tsuyoshi Ihara).

Resta a certeza de que Amorim fez um filme que tenta algumas boas coisas, mas que se deixa ser sufocado por “equívocos comuns”, os quais impedem tais tentativas de serem elas as que ficarão como as mais fixadas na retina – principalmente para quem não queira perceber que há tais buscas.

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