Memórias de Xangai :


Fonte: [+] [-]
Original: Hai Shang Chuan Qi
País: China
Direção: Jia Zhang Ke
Elenco: Documentário.
Duração: 125 min.
Estréia: 06/07/2012
Ano: 2010


Variados níveis de complexidade


Autor: Fernando Oriente

A representação, a criação ficcional de uma realidade em imagens e a transmissão dos sentimentos e sensações que essa realidade evoca e os simples registros desse mundo e seus personagens estão no centro da obra de Jia Zhang-Ke. Seja em suas ficções ou em documentários, esse processo de lidar com a realidade, com presente e passado, bem como com as suspeitas sobre o futuro são o material com o qual o cineasta chinês constrói uma filmografia particularíssima, em que influências de cineastas europeus modernos (Antonioni, Bresson) e diretores asiáticos de enorme talento (Hou Hsiao-Hsien principalmente) se fundem à estética singular de Jia e filmes belíssimos ganham vida. Seu cinema traz muita coisa, reflete sobre aspectos distintos de uma China em transformação, mas tem sempre o homem, o ser humano como núcleo dramático. O homem de Jia Zhang-Ke é chinês antes de tudo, mas representa toda a humanidade em seu universalismo sensorial e existencial. Por isso seus filmes podem ser absorvidos em qualquer parte do planeta onde exista essa angústia de viver, as incertezas e a melancolia da vida.

Com raro talento para compor planos e criar imagens de intensa beleza, Jia Zhang-Ke é um cineasta do sentimento, toda sua forma trabalha para potencializar as sensações dos tipos e dos ambientes que registra. A melancolia e a desilusão estão no centro de toda sua obra. Esses sentimentos são traduzidos de forma poética, em que estética representa algo muito mais complexo, em que beleza imagética serve totalmente para uma proposta, para um discurso denso de observação do mundo. Seus longas visam o naturalismo dos tipos e dos espaços, mas sem os vícios de um cinema contemporâneo que se pretende maior do que o real em suas ficções sujas e desbotadas. Há beleza na dor filmada por Jia e isso não diminui, ao contrário, só amplia a intensidade e o enredamento de seus filmes.

Memórias de Xangai pode ser visto como o ápice de sua proposta estética. Ao unir imagens e depoimentos documentais com sequências encenadas por sua atriz fetiche Zhao Tao e passagens de filmes recentes e antigos (com direito a depoimentos de cineastas como o próprio Hou além de atrizes e descendentes desses diretores), Jia Zhang-Ke cria um híbrido de documentário e ficção em que os limites entre o representado e a realidade registrada se somam em um filme uniforme em que as fronteiras entre os gêneros somem. A força do que é contado por aqueles que dão seus depoimentos ganha intensidade ao serem editados ao lado das cenas dos filmes e dos planos em que o cineasta registra Xangai, seus espaços e personagens comuns e as sequências em que Zhao se desloca pela cidade, sempre emoldurada por um trabalho de luz primoroso e tendo as sensações que o filme aborda registradas por meio de seu rosto, seus olhares e suas expressões, que acentuam de forma aberta o que é falado ou filmado ao longo do filme.

As histórias dos habitantes de Xangai, daqueles que dão seus depoimentos e daqueles que fazem parte dessas narrativas, são o microcosmo da China do século 20 e início do 21. A História chinesa, de antes do sucesso da Revolução de Mao em 1949, da época do Kuomintang de Chiang Kai-Shek, da criação de Taiwan e do êxodo de alguns para Hong Kong se mistura com os fatos pós 49, a Revolução Cultural, o aumento da produtividade industrial, a repressão, a ocupação forçada de partes do território, as mudanças rumo a uma economia mais capitalizada e a construção de novos padrões de vida e de comportamento dentro da mutante sociedade chinesa contemporânea. Tudo isso é abordado no filme de maneira densa por Jia, sem didatismo ou revisionismo raso. A matéria do longa está nesses depoimentos, na força simbólica dos filmes que têm trechos exibidos, nos planos captados de Xangai, Taiwan e Hong Kong nos dias de hoje, bem como nas expressões faciais dos entrevistados, das pessoas comuns captadas pela câmera e de Zhao Tao. Os espaços internos, os recortes de ambientes em que tipos se movem ou mantém-se estáticos, todas as imagens de “Memórias de Xangai” estão cheias de significados, traduzem sentimentos e emoções e criam diálogos entre o que é narrado com o que é mostrado.

O mesmo impacto que Jia Zhang-Ke obteve com suas ficções ele atinge nesse longa. Seu tratamento da realidade e das emoções de seus tipos está presente de forma plena na tela. Xangai é o lugar para onde muitos chineses migraram ao mesmo tempo em que é o local de onde muitos fugiram. A relação entre passado, como esse passado é sentido e recontado pelos depoimentos interage com os fatos históricos em si. A vida ordinária em meio à marcha da História é o centro do filme. O longa expõe a relação com o presente como resultado de uma evolução difusa de acontecimentos, em que acertos, erros, crimes, esperanças e desilusões se acumulam em incertezas sobre o porvir. Os belíssimos movimentos de câmera de Jia, aliados a enquadramentos primorosos mostram como o cinema pode ser complexo, denso e cheio de texturas ao mesmo tempo em que é capaz de produzir imagens belíssimas, embora quase sempre permeadas pela melancolia.

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