Mistérios de Lisboa:


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Original: Idem
País: Portugal
Direção: Raoul Ruiz
Elenco: Adriano Luz, Maria João Bastos, Ricardo Pereira, Clotilde Hesme, Afonso Pimentel, João Luís Arrais, Albano Jerónimo.
Duração: 272 min.
Estréia: 11/05/2012
Ano: 2010


A gênese do cinema, que é simbiose das outras artes, resgatada por Ruiz.


Autor: Cesar Zamberlan

Ver Mistérios de Lisboa do veterano cineasta chileno Raoul Ruiz é um dos programas obrigatórios dessa Mostra. Mais que isso, obrigatório no currículo de qualquer cinéfilo que se preze. Exagero? Não! Ruiz, cuja trajetória tem sido ignorada pelo circuito comercial brasileiro e só pode ser acompanhada graças à Mostra, é um dos mais talentosos cineastas latino-americanos. Serge Toubiana, crítico da Cahiers du Cinema, chegou a escrever que ele era o mais prolífico cineasta da nossa época, “aquele cuja filmografia é ‘quase’ impossível de definir tal é a sua diversidade, esplendor e multiplicidade de formas de produção há mais de vinte anos”. E a afirmação é de 1983.

Respeitado na Europa, Ruiz dirigiu mais de uma centena de filmes para o cinema e para a TV. O último é justamente Mistérios de Lisboa, feito para a TV, em seis episódios de 60 minutos que agora são unidos na versão para o cinema que tem 266 minutos, mais de quatro horas. Mas não se assuste com a duração do filme. O que impressiona - fato compartilhado por críticos como Marcelo Hessel (Site Omelete) e Filipe Furtado (Revista Cinética) em conversas no twitter - é que essas mais de quatro horas voam, tal é a deliciosa costura dos episódios com seus mistérios e a fluência narrativa do mestre Ruiz.

Dos seis episódios da TV: “O Menino sem Nome”, “O Conde de Santa Bárbara”, “O Enigma do Padre Dinis”, “Os Crimes de Anacleta dos Remédios”, “Blanche de Montfort” e “A Vingança da Duquesa de Cliton”. Apenas, “Os Crimes de Anacleta” dos Remédios não está na versão para o cinema.

Mas antes de tentar falar do filme é preciso falar um pouco sobre o que significa essa adaptação da obra homônima de Camilo Castello Branco. Tida como construção de um afresco da sociedade portuguesa do século XIX, os episódios retratam os personagens do período, suas desventuras, dores e amores, formando, por meio das correlações entre personagens e episódios, um extenso painel da época. O escritor e a suas novelas foram comparados a Balzac que, com a sua “Comédia Humana”, criou o conceito de Roman Fleuve, o romance rio, que contaria toda a história da França interligando histórias e personagens para dar conta d e toda uma época e país. Camilo trilha na mesma direção em relação a Portugal. Escreveu cerca de 260 obras em 40 anos, e ainda que esteja mais ligado ao romantismo folhetinesco de Eugène Sue que ao realismo de Balzac, o gigantismo na produção os aproxima. Críticos literários como Antonio Jose Saraiva, por sua vez, afirmam que faltavam a Camilo a objetividade e o espírito analítico de Balzac. Balzac, que por sua vez, também recebeu críticas semelhantes em comparação a escritores como Zola e Flaubert.

Ruiz ao se apropriar desse universo, não só consegue dar conta da construção desse monumental afresco, se pensarmos nas histórias e seu desenrolar, como cria toda uma reconstituição pictórica esmerada da qual vai se valer para criar os cenários por onde transitam os personagens. Quadros importantes não só são citados na construção dos planos como aparecem em vários momentos compondo o plano como objetos de cena.

Esse diálogo ocorre também na forma como Ruiz constrói as sequências. Se um certo classicismo permeia boa parte do filme, em vários momento esse ar mais sóbrio contrasta, não de maneira gritante, com uma elboração visual mais próxima ao barroco e ao romantismo. Este último, sobretudo, quando o garoto Pedro se transforma num adolescente e se apaixona pela Duquesa de Cliton. Ruiz ao compor esse afresco vai dando a ele as pinceladas de cada época, inserindo novas camadas, novos elementos e também novas formas de ver o mundo, ainda que a matriz narrativa ainda seja o fol hetim.

E as ligações, ou ganchos de um episódio ao outro, algo que as telenovelas herdaram desse gênero, ganham na obra de Ruiz um equivalente filmico à altura graças ao uso de planos longos e planos sequência que dão à obra um ritmo mais contemplativo, profundo, denso, mas não menos suave. Tal qual o romance rio ou as transições do folhetim, o que temos aqui é um fluxo de imagens que desagua de maneira quase imperceptível entre as sequências, nos levando a novas histórias sem nos darmos conta desse caminho.

Essa forma do filme, aliada ao entrecho folhetinesco que põe as personagens em ação, indo e vindo atrás de novidades e tentando contornar a tragicidade de suas vidas – elementos típicos desses mistérios - fazem do filme de Ruiz uma obra monumento, que conjuga, como poucas outras, literatura, história, artes pláticas e cinema. Um filme que renderia ensaios e mais ensaios, páginas e mais paginas, pois nunca se esgota. Depois de uma dezena de bons filmes, Raoul Ruiz talvez tenha chegado ao ápice da sua carreira.

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