Minha Felicidade:


Fonte: [+] [-]
Original: Schastye Moe
País: Alem/Ucr/Hol.
Direção: Sergei Loznitsa
Elenco: Viktor Nemets,Vladimir Golovin, Aleksey Vertkov.
Duração: 127 min.
Estréia: 02/03/2012
Ano: 2010


De Dumont, Haneke. Inclusive Akerman


Autor: Cesar Zamberlan

Minha Felicidade, do ucraniano Sergei Loznitsa, acompanha basicamente a jornada de um personagem: o motorista de caminhão Georgy. Ele está em boa parte do filme e a sua trajetória é entremeada por várias histórias curtas de outros personagens que vagueiam por lugares igualmente desoladores e insólitos. Histórias como as vivida pela enigmática figura do velho que ele dá carona e que irá acolhê-lo depois. Todas têm em comum uma extrema violência, uma crueldade que faz do existir uma experiência fadada à inevitável tragédia, sem possibilidade alguma de saída, daí o minha felicidade do título soar como algo bastante irônico neste universo de mortos vivos do diretor ucraniano.

Esse quadro, porém, não nos é dado de maneira imediata, ele é construído aos poucos, e vamos emergindo nele com o personagem. Paulatinamente, somos levados para um espaço no qual não há regras, moral, leis de conduta e muito menos gratidão, o pântano que deveria ser evitado revela uma dimensão desumana, animal, primitiva e bárbara. Georgy é aconselhado pela jovem prostituta a não ir por aquele caminho, ainda que o charco tenha sido drenado, mas ele, bondoso com ela e com os outros, acredita estar a salvo de todo e qualquer selvageria.

Loznitsa nos leva a esse lugar construindo planos fortes, closes expressivos, muitos deles, em planos sequência nos quais a câmera passeia entre a multidão lembrando Chantal Akerman em Do Leste. Mas se há semelhança nos rostos sempre tão sérios e sofridos e na forma como a câmera se detém a essas figuras anônimas na multidão para depois abandoná-las, há uma mudança no registro, não se busca o lirismo, o sentido de passagem, como em Chantal, mas uma noção de abandono, de derrelicção, de imobilismo. Além dessa característica, outra notável é uma volubilidade da câmera que várias vezes se deixa ir por caminhos diferentes dos traçados pelos personagens para reencontrá-los depois, num vagar próximo ao de todos esses seres, seres perdidos como zumbis numa terra arrasada, mudos, retardados, mutilados ou em processo de enlouquecimento. A câmera parece também procurar uma saída, um melhor caminho, mas não o encontra e como um cachorro vadio morrendo de fome junto ao dono, prefere voltar a este ante ao perigo de não encontrar nada melhor e se perder.

Choca em Minha Felicidade a falta de moral, a violência gratuita, a desolação e, sobretudo, a sequência final na qual a violência é respondida com mais violência – fiquemos aqui para não dar mais do filme que o necessário -, mas esse painel composto pelo cineasta ucraniano do mal estar do pós guerra remete diretamente a filmes de cineastas como Bruno Dumont e Michael Haneke, que em outros contextos e com outras características formais, também apontavam para uma sociedade em ruínas. É desolador? Sim, esse é o universo do cineasta, mas, por mais terrível que seja não há como negar que existe nesse registro uma paradoxal beleza. Coisas da alma humana.

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