Caminho Para o Nada:


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Original: Road to Nowhere
País: EUA
Direção: Monte Hellman
Elenco: Shannyn Sossamon, Tygh Runyan, Cliff De Young, Rafe Tachen, Waylon Payne, Dominique Swain, Rob Kolar.
Duração: 120 min.
Estréia: 17/02/2012
Ano: 2010


O velho e bom Monte Hellman!

Autor: Gabriel Carneiro

Mais de vinte anos afastado do cinema, o mítico diretor Monte Hellman, agora octogenário, volta com uma pequena pérola: Caminho Para o Nada. Não é um filme fácil, porque Hellman decide fazer de seu retorno um jogo com o espectador, usando todo seu conhecimento de se fazer cinema barato, com cara de filme barato. Um dos maiores trunfos do longa talvez seja o de parecer um policial vagabundo, daqueles exibidos na madrugada da TV Bandeirantes. Porque se a aparência é essa, há muito mais que Hellman quer dizer, num trabalho sobre um diretor de cinema contando a história de um assassinato um tanto conturbado, envolvendo uma jovem e um político muito mais velho.

A começar com a brincadeira metalingüística: seja nas diversas citações a filmes, frases emblemática que seu diretor profere, quase como se quisesse se aproximar deles, seja nas diversas intervenções da própria câmera, confundindo o espectador, do que é real com o que é ficcional, na história. Essa brincadeira vai muito na linha do questionamento ao que de fato é real e sobre o poder da imagem. Hellman busca dar um nó na plateia logo no início, nos créditos iniciais, assinado por Mitchell Haven, o personagem que é diretor, como se ele tomasse a voz do filme para si. A ideia é confundir sempre o que é filme, processo fílmico, e o que é a realidade por trás dos fatos. Por isso, Hellman privilegia os mesmos atores em ambos os casos. É um grande provocador, cutucando o espectador para sair da mesmice. A tão bela abertura, com música country e a ação de um policial, coadunam-se a esse aspecto: “complexificar” a imagem.

Porque, não importa qual seja a realidade – e aí Hellman toma para si a conclusão de O Homem que Matou o Facínora, de John Ford -, importa o que é necessário para o diretor, e, aí, no caso, é o fascínio pela imagem tão bela e sedutora da protagonista de seu filme. Hellman afirma aí seu papel como cineasta e como ficcionista, e ainda faz troça da quase maldição que é o alerta em letreiros, “baseado em fatos reais” – o público de cinema respondeu a isso muito bem, ignorando completamente Caminho Para o Nada, que foi um completo fracasso por onde passou, e mostrando sim, que a realidade é mais interessante do que a ficção. O filme parece muito destinado a esse público, quase uma afronta, questionando sobre os dispositivos usados por esses pretensos filmes reais. E Hellman faz questão de frisar que cinema é cinema, não importa o tema, há sempre uma câmera a te observar. No clímax, o diretor pega a câmera – uma 5D, o futuro do cinema ao que parece dizer - e filma, de relance, a sua equipe filmando-o. Recado maior não poderia ser dado.

A complexidade do filme de Hellman vai além. Seu Caminho Para o Nada é todo intrincado, cheio de firulas, de excessos. É quando bate a característica do policial vagabundo, que acredita na conspiração e nas múltiplas pistas, todas díspares e dispersas, com uma montagem alternada, confusa, que solta aos poucos possíveis enlaces. Ele faz tudo isso sem que o filme, de fato, ande para frente: não há evolução. Porque o que importa é outra coisa, assim como para seu diretor ficcional. Não são as respostas que ele busca, porque ele sabe a tarefa ingrata que isso é, já que muitas coisas simplesmente não têm resposta. Nem tudo tem uma explicação lógica, mínima e detalhada, como muito quer a realidade contemporânea. E nisso, o título original é perfeito. Seu filme aponta, justamente, para lugar nenhum.

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