Caminho Para o Nada:


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Original: Road to Nowhere
País: EUA
Direção: Monte Hellman
Elenco: Shannyn Sossamon, Tygh Runyan, Cliff De Young, Rafe Tachen, Waylon Payne, Dominique Swain, Rob Kolar.
Duração: 120 min.
Estréia: 17/02/2012
Ano: 2010


Cinema de tempos da contraposição


Autor: Cid Nader

Quando se vai ao pregresso de Monte Helman, encontra-se um realizador que em nenhum momento transitou por vias fáceis ou oficiais, com seus filmes que realmente não eram de beleza e emplacamento comum ou similar ao que sempre foi ordem estabelecida nas largas e super lotadas estradas ianques. Diretor que sempre encontrou no deslocamento, ou no não estabelecimento, as vias onde se sentia melhor, onde entendia ser mais coerente ver seus trabalhos trafegando. E diretor – que talvez até por opção, idealismo: talvez... – que nunca soube o que era sobra de orçamentos para a confecção de seus trabalhos, o que deve também ser levado em conta como fator contribuidor para uma filmografia que buscou os atalhos, as vias paralelas.

Não à toa – e aí atendo o texto na questão orçamentária -, Caminho Para o Nada (tão mais justo se a tradução fosse um literal “Estrada Para Lugar Nenhum”), um filme estruturado sobre pilares “falsidades” de um meta-filme, faz questão de se ver mostrando-se pelas “lentes meta” de uma competente, mas comum, Cannon 5D, e atuado por atores (dentro e fora de suas meta-intenções) desconhecidos e de procedimentos quase canastrões. Não à toa, Monte Helman se reencontra em uma obra toda reverencial (desde os caminhos não lineares, à pouca grana) ao seu modo de ver e entender a arte.

E o que resultou desse novo inconformismo (no sentido de não compactuação com o estruturado, com “os conformes”) do diretor, que volta ao cinema 23 anos após Iguana – A Fera do Mar? Um trabalho que aposta na complexidade da não linearidade para contar sobre um assassinato, sobre um suicídio, sobre personagens reais (dentro do filme), sobre personagens fictícios (dentro do meta-filme), sobre os reais talvez não serem os reais, ou sobre as questões técnicas da construção cinematográfica impondo movimentos que tragam o espectador de volta à “realidade”, quando mergulhado em incertezas de que o que vê num dado instante é o meta ou é o do filme.

Resulta que o trabalho parece oscilar (para além das verdades ou enganações pensadas e concretizadas) entre algumas dúvidas que extrapolam o modo normal do diretor trabalhar (que é esse da não cumplicidade com o comum), para estabelecerem a sensação de alguns equívocos surgidos pela falta de traquejo com cinema - natural para quem não o executa há mais de duas décadas -, e para um diretor veterano que de maneira evidente tenta situar o drama da história na mais atual contemporaneidade (algo de ligação às questões da internet), enquanto referencia vários dos trechos com trechos de filmes realizados por diretores clássicos.

Caminho Para o Nada não tenta em momento algum se impor sobre o espectador. Com um filme de Helman deveria se comportar, todos os seus defeitos e virtudes nascem de um modo não compactuante, mas bem distante de se tentar se aproveitar disso para impor ares de obra hermética ou pretensiosa. É um trabalho muito “real”, muito dado, muito à mão e ao alcance, e por essa consciência que o diretor tem sobre o que criou e o que (e como) quis oferecer, repousa num patamar de “simpatia e agrado” raro de se encontrar no cinema (arte tão complexa e sedutora para quem quer realizá-la complexa demais). Pois a sua trama – mesmo que de ilusão e enganação -, homenageia a arte nos mais diversos aspectos (desde os da atuação, ao da confecção das imagens, passando pela trilha – que conta muito mais do que apenas sonoriza), pela repetição de um viés autoral muito particular e raro.

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O velho e bom Monte Hellman!