Para Poucos:


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Original: Happy Few
País: França
Direção: Antony Cordier
Elenco: Marina Foïs, Élodie Bouchez, Roschdy Zem, Nicolas Duvauchelle.
Duração: 103 min.
Estréia: 09/12/2011
Ano: 2010


O amor, o corpo, o desejo e o sexo - descolamentos no mundo atual


Autor: Fernando Oriente

Antes de tudo é bom deixar claro que Para Poucos, de Antony Cordier, é um filme com problemas em vários de seus elementos constituintes. Dito isso, é mais importante ainda o fato do longa francês ser uma obra instigante, com inúmeras qualidades e com muito a nos dizer sobre o ser humano e os dias de hoje. Por meio da historia do envolvimento erótico-sentimental de dois casais, “Para Poucos” discute o desejo, o amor, a carência e o desencanto no mundo atual. Além disso, o filme traz todo um discurso político muito bem inserido em sua diegese.

Cordier constrói planos em que a câmera capta a energia, a tensão e a instabilidade dos quatro personagens centrais. Com uma variação entre planos tremidos e enquadramentos que registram as ações como se o diretor e seu olhar fossem intrusos em uma cadeia de desejos, pulsões e afetos, a sucessão de cenas oferece um registro sensorial das experiências vivenciadas pelos tipos. Ao trocarem de parceiros, os dois casais embarcam em uma viagem libertária em direção à realização de suas fantasias e da superação do sentido de frustração que tomba sobre homens e mulheres no mundo de hoje. Ao abrirem a relação, ao se entregarem aos seus amantes com o consentimento de seus parceiros, os protagonistas do filme tentam se aproximar de uma ideal de realização, de conquista da satisfação. Mas essa satisfação, como já escreveu Freud, é algo sempre inalcançável. Não o prazer das satisfações, mas a satisfação plena.

As pequenas elipses trabalham a favor e contra ao filme dependendo do momento. A favor temos uma agilidade na passagem entre o momento em que os personagens se conhecem ao momento em que já estão entregues aos seus desejos. Contra temos uma ausência de aprofundamento dramático de algumas cenas e a falta de imersão total nas texturas dos protagonistas. Embora carente desse aprofundamento maior, os quatro personagens resultam em tipos interessantes e com boa dose de complexidade. Todos os quatro atores estão bem e seguram as tensões a que seus personagens são entregues. Destaque para a ótima (e linda) Élodie Bouchez, que brilhou em filmes de Assayas na década de 90 e andava sumida.

Talvez o maior mérito de Cordier seja a forma como ele filma os corpos e as cenas de sexo. Em Para Poucos os corpos estão expostos como são, em suas carnes, formas, curvas e mistérios. O sexo é intenso; o desejo reflete e guia as trepadas do filme. Não existe o cuidado pudico que infesta a maioria das cenas eróticas dos filmes atuais. Sexo é desejo, é ação, é prazer e é relaização. E é assim que Cordier mostra.

Outra conquista de Cordier é fazer um filme (teoricamente) sobre a troca de casais ser, antes de tudo, um filme sobre o amor. Na busca pelo prazer, no rompimento dos padrões considerados normais, os personagens encontram o afeto, o preenchimento de vazios interiores e a realização de um novo amor, além da confirmação de um amor que já existia mas se torna ainda mais intenso nessa entrega aos desejos.

Para Poucos também é um filme político. Sem ser panfletário e nem explicitando suas intenções, o longa constrói toda uma cadeia de inter-relações entre seres políticos. O corpo é uma entidade política. Desejar mais é uma ação política. Ser contra o que é vendido como normal é tomar uma atitude política. Nesse sentido, e ao usar personagens de origens étnicas distintas, Cordier mostra-se um diretor político em uma das melhores maneiras em que isso pode ser apresentado no cinema de hoje.

Os problemas que existem claramente no filme não tiram o seu impacto positivo nem a força com ele chega ao espectador. Mas, os equívocos do excesso de narração em off na parte final, momento em que o longa também sofre com um exagero de situações dispensáveis e um destempero no sentimentalismo, atrapalham Para Poucos de ser ainda maior. Mesmo assim, um filme que tem que ser visto.

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