Leite e Ferro:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Cláudia Priscila
Elenco: Documentário.
Duração: 73 min.
Estréia: 25/11/2011
Ano: 2010


Belo instinto da direção.


Autor: Cid Nader

É estranho conversa com amigos após filmes: mais estranho quando a conversa se dá durante festivais (ocorrida em Tiradentes, no anão de 2010). Havia muita mais má vontade de alguns com quem falei de Leite e Ferro após a sessão em que o vimos do que o filme mereceria. Pior: havia fixações em alguns pontos que me pareceram equivocados. Para mim, o filme tem muito de seus méritos no desligamento emotivo “pra baixo” que tal abordagem costuma suscitar em diretores que realizam trabalhos sobre mães em situações limites como as retratadas aqui – vale dizer que a diretora Cláudia Priscilla fez seu trabalho numa unidade prisional em que mães ex-viciadas cumprem suas penas, com a companhia de seus bebês.

Quando se pensa em mote de tal grau de emotividade se imagina que relatá-lo por viés de choradeira, de dificuldade pela distância da liberdade, será opção certeira em busca de público que se “identificará” chorando pela maldade humana. Cláudia abordou o assunto, deixando com que verdadeira humanidade das mães detentas aflorasse: aquela humanidade que insiste em permanecer ativa, que nos leva a ter razões para continuarmos, que pode ser evidenciada pelo bom humor, pelo auto-escracho, pela visão de quanto pisamos na bola, sem que nos martirizemos eternamente. Me falaram da falta de evidenciamento da maternalidade que perceberam, numa situação bastante antagônica ao que senti: o fato de perceber as mulheres sempre em alto astral alentado, contando piadas sobre suas, e das outras, tragédias, remete a sentir que tal atitude (por vezes com cara de exagero, inclusive) se faz presente justamente pela necessidade de manter clima e vontade favoráveis ao futuro dos bebês, que seriam o maior motivo para que elas manterem a vontade de continuar.

A diretora conseguiu uma cumplicidade rara nesses casos, o que permitiu autenticidade e espontaneidade nas reações. Cláudia posiciona suas câmeras (dirigidas por seu marido, Kiko Goiffman) de tal maneiram que o cotidiano transcorre de forma a permitir que as declarações emitidas sejam feitas sem o temor da opressão do inquiridor. Se não é o maior filme do mundo, para uma estreante, e tratando do assunto que optou tratar, percebi muito mais méritos do que problemas: e muito mais alvos alcançados – para quem quiser perceber isso, principalmente.

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