O Céu Sobre os Ombros:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Sérgio Borges
Elenco: Everlyn Bardin, Edjucu Moio, Murari Krishna, Grace Passô.
Duração: 72 min.
Estréia: 18/11/2011
Ano: 2010


O incomum e o "antigo", lado a lado.


Autor: Cid Nader

Sérgio Borges trilha nesse seu filme um caminho incomum, mas não inédito – sem que isso seja uma pré-avaliação. Fez um trabalho que é de tocada rara, quase naturalista ao extremo, “perseguindo” três personagens por seus cotidianos, mas sem acelerar ou “modificar” jamais seus traços originais – sim, cinema é interferência, mas Sérgio trabalha numa faixa onde a ingerência da arte não necessita que ela desestruture a realidade, ao mesmo tempo que não se vende de forma alguma como simples “obra documental” -, apostando na fluidez dos ritmos comuns e na paciência de quem queira comprar o produto, conjugando-se para o objetivo final: que é o da obra se apresentando para o espectador que a admirará.

Ele buscou três figuras um tanto raras para fazer seu O Céu Sobre os Ombros: a transexual Everlyn Barbin já é uma surpresa enorme, pois é uma transexual que faz programas nas esquinas, mas também revisa textos e tem vida acadêmica ativa (dá aulas e fala de Foucaut com a mesma desenvoltura com que se propõe a programas); Murari Krishna é (pelo nome já se supõe) Hare Krishna, participia de torcida uniformizada violenta do Atlético Mineiro, trabalha com telemarketing e anda de skate como opção de lazer; e Lwei Bakongo vive às custas da mulher, pensa em se matar e dedica sua maior paixão ao filho com doença mental. Todos esses três personagens, com algumas características a mais e bastante estranhas entre em si (e estranhas entre si dentro de cada um deles, como se percebe pelas poucas que destaquei aqui), já constituiriam material suficiente para que um filme fosse compreendido como “diferente”.

E sabedor da potencialidade de seus personagens, da “insanidade” que brotaria naturalmente por seus comportamentos e argumentos (um quer morrer em 2010, o outro que é budista e violento no futebol, por exemplo), imaginou que contá-los em filme teria de ser “simples assim”. Apontou suas lentes (as de Ivo Lopes Araújo) de forma direta, sem pirotecnia, editou de forma quase “quadrada” e aproveitou o inusitado dos assuntos. Fez um filme que é ousado, mas quando se atenta mesmo, e com calma (sem voltar a lembrar de que há trabalhos do estilo se repetindo, felizmente), criando uma nova tendência que resgata algo antigo, que sabe o quanto tinha de bom na mão, e o quanto não precisava mexer demais em nada. Simples assim.

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