Riscado:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Gustavo Pizzi
Elenco: Karine Teles, Camilo Pellegrini, Dany Roland.
Duração: 85 min.
Estréia: 09/09/2011
Ano: 2010


Surpreendente


Autor: Cid Nader

Histórias de pessoas que nunca encontram facilidades para percorrer seus caminhos de vida são um dos grandes motes utilizados pelo cinema, desde o início da arte. Mulheres com vida complicada (não obrigatoriamente por suas complexidades interiores, seus dramas mentais, suas fraquezas ou diferenças, mas daquelas que carregam uma nuvem negra em cima como um carma inseparável) tendem a levar tais atos de construção a serem concretizados como se um celeiro de possibilidades tivesse sido aberto, permitindo a utilização das coisas guardadas nele por qualquer “modelo” de realizador que esteja à procura.

Vindo do caso “nuvem negra sobre a cabeça” (e com um adendo bastante potencializador como atrativo, que é o fato de ser atriz a de teatro), Bianca (numa interpretação rara – pela naturalidade e aparente intimidade com que ela age em seus desígnios de protagonista) foi criada pelo diretor Gustavo Pizzi para sustentar um filme de rara composição, já que poderia se sustentar, ou pela beleza de suas imagens, ou pela vibração e claridade dos recantos utilizados, ou por essa atuação de Karina Teles, ou mais ainda pelas experiências tentadas (na realidade conseguidas) nos variados modelos de captação.

Tais modelos de captação são peças importantíssimas para marcar o filme de forma forte na retina: com sequências realizadas, na maior parte do tempo em HD (aqui, como o “quase todo”, o portal dos outros); os momentos mais íntimos vindos de cenas filmadas com uma câmera fotográfica; instantes dos ensaios (já que Riscado transita entre preparativos de uma peça, e de um filme), que imprimiam na tela aquela sensação boa e antiga da “imagem quadrada”, feitos com o prosaico 16 mm; um 16mm sujo, também, nos créditos; e uma bela cena próximo do final (bela pela plástica, triste porque significa o instante em que Bianca retorna ao seu mundo real: infeliz e cármico) - com mulheres, e bananas, fazendo um musical à Tsai Ming Liang (coisa alertada pelo próprio Pizzi., e que traz à mente imediatamente “O Buraco”, ou “O Sabor da Melancia”), em scope/super16mm. Não dá para deixar de lado em toda a excelência técnica/estética (que adorna um filme surpreendente) ostentada, a qualidade da música, ou o belo trabalho da direção de arte (já sugerido acima, de outra maneira) de Fernanda Teixeira (uma curta-metragista jovem com bons filmes no currículo e muitas colaborações no currículo).

Bianca é uma atriz que tenta ter uma vida que a distancie das chatices e exigências que as pessoas “comuns” assumem como o modo de comportamento e de sustentação, no dia-a-dia, e sofre por isso (além dos azares que carrega – como disse, não é uma garota com problemas físicos ou mentais): pois sua locatária lhe cobra os atrasos no aluguel, mas aproveitando para passar lições de moral, cobrando que cresça e tal; pois tem, de trabalhar como divulgadora de produtos, ou como protagonista de papéis estranhos em festas com aqueles execráveis telegramas animados. A vida é dura com ela, que na realidade é uma pessoa dócil, que quer somente atuar. E o filme trata de embicá-la na possibilidade de atuar num filme de produção internacional (o que seria uma virada sensacional), além de brindar-lhe com os ensaios em uma peça de teatro. Pizzi não foi bonzinho para com seu destino – o idealizado.

Não facilitou sua vida, dentro de um filme de forte conotação inventiva, e forte conjunção de fatores tristes. E misturou personagem real com personagem fictício (sendo que é necessário lembrar que estamos falando de cinema, portanto o real que cito está dentro do artificialismo – procedimento comum da arte), subvertendo ordens lógicas, trazendo Bianca para dentro de um de seus personagens (e vice-versa), para criar uma obra que também é meta-cinema. Há a carga obtida, o dinamismo arranjado, o modelo narrativo atípico. Há cinema vivo e acessível, dentro do cinema “pensado”.

P.S.: belíssimo momento de criação na cena em que ela dança sobre imagem projetada da pin-up Beth Page.

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