A Alegria:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Felipe Bragança, Marina Meliande
Elenco: Clara Barbieri, Flora Dias, Bernardo Barcelos, Junior Moura.
Duração: 110 min.
Estréia: 19/08/2011
Ano: 2010


Há cinemas diferentes.


Autor: Cid Nader

Bem: não dá para negar que essa associação entre Felipe Bragança e Marina Meliande tem rendido alguns filmes que se repetem por alguns aspectos (constituição de autoralidade sendo desenhada?). A saber: são filmes que jamais – jamais – se entregam de mão beijada, fáceis, deixando com que aspectos de compreensão complexa, até por um certo hermetismo, passem a criar uma marca registrada da obra; trabalhos que têm o Rio de Janeiro como cenário ideal (natural, já que ambos são de lá – acredito), não o que se faz com o Rio do imaginário, das praias e das paisagens, mas com um Rio que é provavelmente o fruto de suas memórias infantis, dos aspectos físicos conhecidos com razoabilidade apenas por quem é de lá (ou lá mora), por observações adultas de quem se preocupa com suas transformações, com seus problemas, com o que está ocorrendo e com o que poderá ocorrer; filmes que têm um forte aspecto de rememoração de cultura popular de um passado mais lúdico restado na mente (carnavalesca, musical, visual, ou por comportamentos espontâneos de uma população mais “malemolente”); que utilizam a juventude como o lado humano (a protagonização) que cumprirá o papel de reação e explanação do que foi imaginado como mote a ser discutido, como a essência das questões; e que, principalmente, são muito bem resolvidos nos aspectos técnicos e estéticos (com momentos de câmera superior, e escolhas de iluminação muito particulares ao ditado da vez, além de escolhas específicas de instrumentos adequados a cada necessidade).

O que é esse novo A Alegria senão uma acumulação de tais repetições, com algumas especificidades a mais? Aliás, é nas especificidades de cada trabalho que se criam as diferenciações entre obras que comungam, para distingui-las umas das outras. Os diretores foram a um Rio que poderia ser atemporal pelo seu início “carnavalesco inocente”, próximo de águas que não as do mar do imaginário (dois personagens tocando um instrumento de percussão, fantasiados com “mortalhas” ou fantasias coloridas que remetem aos carnavais antigos, que ouvem tiros ao longe – no início, pelo inusitado da natureza e das vestimentas poderia se pensar em qualquer lugar e época, em caçadores... -, e que fogem mato adentro). Pouco tempo, uma festa de Natal já faz entender que se está no Rio de Janeiro dos bairros de classe média, em tempos atuais, e que a situação dos tiros tem muito a ver com a realidade do hoje, com a violência que assusta e faz pensar na cidade e no cuidado que anda merecendo.

Foram ao Rio dos adolescentes (jovens que lhes são tão caros, sempre), intrometendo-os fortemente na história, substituindo toda e qualquer ação adulta em grau de importância para colocá-los no papel dos inconformados que devem ser, dos apaixonados que sempre são, dos que se preocuparão com o que está acontecendo em sua cidade querida, e que farão o hermetismo de algumas situações talvez mais facilmente compreensíveis pelos de suas idades. O que se percebe enquanto o filme avança lentamente na tela é que estamos nos dias de hoje e que se a ideia é a de rotular um tema somente como o condutor do trabalho seria justo a direcioná-lo à discussão, procura, anseios e medos de uma jovem (Luiza, de 16 anos, interpretada por Tainá Medina), que se revolta com a propagação das questões que referem ao fim do mundo – jovem que tem liderança natural, força excepcional, e está se apaixonando.

Há complicadores no trabalho (coisa que se percebe durante seu tempo de vida na tela, mas que sucumbem ante as virtudes, no posterior) que parecem querer dirigi-lo a algo que tropeça em arrogância e exercício de estilo. O fato de não se abrir jamais por vias explicativas e de apostar nas atuações dos adolescentes como senhores de seus tempos e condutores dos modos que abastecerão a tela de imagens “estranhas”, pode parecer, no momento, maneirismo. Isso com certeza dificultará quem não aceitar comprar as propostas. Mas quando se topa a “encrenca”, se percebe que há quase uma obsessão (boa obsessão) da direção em jamais acelerar os movimentos das câmeras (há cenas belíssimas, como a da imagem que perde a “corrida” para o adolescente, para pacientemente alcançá-lo lá na frente; ou a da sedução exercida por Luiza sobre o garoto por quem se interessa; por exemplo), criando ritmo marcante e contrastante com o que se imaginaria da ansiedade natural dos jovens. Quando se topa a encrenca, saca-se que o filme fala muito diretamente com a molecada (as sessões das fantasias dos monstros, ou a do “videogame” que ilumina as janelas de apartamentos – e que na realidade acaba por denunciar quase que por comprovação que Luiza é uma garota disfuncional, também).

Topadas as encrencas, percebe-se que A Alegria ainda tem tempo de homenagear o cinema – o monstro marinho... para quem quiser pensar, autores orientais dos instantes atuais -, e se chega a um filme mais completo e mais complexo no caminho de evolução dos dois diretores. A vontade revê-lo é um bom sinal.

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