Transeunte:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Erik Rocha
Elenco: Fernando Bezerra, Bia Morelli, Luciana Domschke, José Paes de Lira.
Duração: 125 min.
Estréia: 12/08/2011
Ano: 2010


Belo


Autor: Cid Nader

Eryk Rocha começou sua carreira lá trás com “Rocha que Voa” (2002) de maneira estranha, por querer ser reverencial demais ao pai (Glauber), o que resultou um documentário um tanto falso em suas tentativas de ousadia. O tempo passa, “Intervalo Clandestino” (2006) e “Pachamama” (2008) no meio do caminho e ele finalmente resolve dar um salto mudando de direção para criar seu primeiro filme de ficção.

Eryk, nessa mudança, ganhou evidente estofo nas manipulações das imagens, e no que fez com elas na edição, pois mesmo entendo-se o trabalho como mais um possível exercício de estilo (algo ostensivamente nutrido em sua filmografia anterior), dessa vez fica uma certeza total de que tal exercício não superou a verdade de uma história contada, fazendo com que esse quesito técnico trabalhasse em favor de um filme (que se completa sempre quando há razões para atos e tentativas formalistas excessivas ou glamurosas a mais).

Muito mais: as imagens e suas disposições, na realidade, se revelaram o filme, o modo de construção da história o caminho narrativo optado como o revelador do que viria ser lentamente contado (abdicou da necessidade das explicações sonoras – ou outras – para deixar com que a sequência dos dados por imagens se encarregassem de tal procedimento). Na realidade, com essa atitude de elogio ao filmado, resgata uma das essências do nascedouro da arte que é a constituição dela somente pelo acúmulo e bom trabalho com as imagens, deixando para os “inter-títulos” o papel de mero complementador de pequenas necessidades (nesse caso, os poucos diálogos ou as músicas cantadas nas serestas).

Quando o filme começa, uma longa sequência (diria, de um 30 minutos) onde o transeunte do título (o aposentado Expedito – interpretado por Fernando Bezerra) passeia ou observa a cidade do Rio de Janeiro entregando à telona imagens muito bem filmadas (com PB e granulação pensados), um certo receio de que, novamente, um trabalho focado “somente” em exercício de estilo e “qualidade superior” poderia estar dando continuidade “normal” à sua carreira me incomodou. Mas nada como a paciência exercida para o bom acompanhamento do cinema. O que segue torna Transeunte, no mínimo muito elogiável (para não cairmos na facilidade de dizê-lo como, “imprescindível”).

Com o tempo, com Expedito passando a ouvir conversas conexas e mesmo passando a emitir poucas palavras – quando vai pegar sua primeira aposentadoria e tem de falar o nome da mãe – o filme de imagens passa a “explicar” mais a potência e qualidade delas, organizando a mente do espectador de forma interessante (por processos pouco comuns), para revelar que temos na tela um ser isolado, que foge um pouco da vida, tem medo de reviver, cultua a esposa falecida, e freqüenta – aparentemente somente por prazer comum (ledo engano, já que tal lugar é o ápice do fechamento da compreensão do personagem de sua sina) – um local de serestas como maior modo de aproximação dos outros.

Percebe-se, com o tempo e tal acúmulo de imagens, o momento em que começa a romper seu auto-isolamento, com algumas atitudes revelando por atos que páginas estão sendo viradas em sua vida (quando ouve uma discussão entre casal, e resolve colocar o fone de ouvido; ou quando busca os olhares de mulheres mais jovens; e, de forma bem mais importante, quando resolve comprar um par de óculos escuros). Um momento, num ossuário é extremamente belo e significativo em seu longo percurso, e o que parece, a princípio, um equívoco – quando várias possibilidades de final se insinuam, mas são desprezadas -, acaba por parecer equívoco menor (talvez até escolha consciente) diante do momento mais bonito do filme que ocorre no local das serestas: momento libertador e que faz com todas as peças se juntem. Belo – e, principalmente, corajoso – salto acima de Eryk.

P.S.: de toda forma, há novamente uma evidente homenagem ao pai na cena do pastor pregando no meio da rua.

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