Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres:


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Original: Serge Gainsbourg, Vie hérooïque
País: França/EUA
Direção: Joann Sfar
Elenco: Eric Elmosnino, Lucy Gordon, Laetitia Casta, Doug Jones, Anna Mouglalis, Mylène Jampanoï, Sara Forestier, Claude Chabrol.
Duração: 130 min.
Estréia: 08/07/2011
Ano: 2010


Justíssimo com a figura do "homenageado".


Autor: Cid Nader

Para retratar em cinema a figura quase mitológica de Serge Gainsbourg – e mitológica para além de sua potência musical inquestionável, mas também por conta da fama sedimentada sobre histórias de amores e paixões (de belas e famosas por ele, um sujeito feioso, digamos), e fatos que não se sabe até onde frutos de sua excessiva imaginação, além de algumas atitudes políticas e anti comportamentais marcantes -, o diretor Joann Sfar foi bastante a um de seus mundos de sobrevivência (as artes visuais, mais especificamente os cartuns) para poder colocar em tela o modo mais concreto e reverencial que tentaria fazer justiça a figura tão pouco comum.

Já de início – na realidade, um fato, uma figura animada, que se perpetua por todo o filme como um estigma indissociável da figura humana criada sob protagonização um tanto no controle-remoto de Eric Elmosnino – fica evidente por qual mundo trafega o diretor com tranquilidade: todo o momento primeiro se faz sob composição gráfica de excelência, com caricaturas tomando o quadro e bonecos sobrevivendo para se imiscuírem por trechos da trama, dividindo espaço ou criando um outro lado da moeda (o gênio do mal ou insatisfeito, por exemplo), com atenção na qualidade musical que se faz parte quase visível da complementação das cores exibidas, além de restituição ambiental de época que vai além da correção, para fazê-la parte dos intuitos pictóricos pressentidos.

Contadores de histórias (o que são os músicos, afinal de contas?), e seres que se auto idolatram (e falar de conquistas amorosas impensáveis pode ser considerado, quando alardeado pelo conquistador, como auto idolatria), tendem a parecer mentirosos à opinião comum, por vezes escarniante, por vezes invejosa. As situações de vida de Gaisnbourg que vieram ao conhecimento eram composição de elementos que forçaram seu reconhecimento em patamares que variaram entre a certeza de sua genialidade (principalmente como um dos maiores músicos modernos), e as dúvidas sobre sua vida. Sfar, atento a essa possibilidade, negando as certezas (que costumam empobrecer filmes que tratam de pessoas não tão claras), fez de Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres um emaranhado bastante competente, desde aquele início citado com composições gráficas não especificamente de cinema, mas num avançar rítmico que aletrou constantemente as riquezas que poderia supor, e os dados mais reais de uma vida pública. Quando fala lá da infância da criança judia compartilhando sua infância com o nazismo imperante, as imagens, as lembranças - sobre o que realmente teria acontecido - colorem os dados físicos, hiperbolizam as situações, e já se nota que o advir não definirá verdades absolutas, enquanto o grafismo se impõe com força e intenção de fôlego.

O diretor acentua as situações, indo além da evidente qualidade demonstrada com as manipulações animadas, e demonstrando, num avançar e acumular alinear de concretizações, domínio técnico que permite entendê-lo como competente nos trâmites do cinema mesmo. Aproveita as situações mais conhecidas da vida do compositor com certeza de onde as intrometeria nas sequências, preenche os quadros de dinamismos (estéticos e vitais – nas personagens que desfilarão e se substituirão constantemente), e passa a vasculhar a musicografia, fazendo dela mais um elemento imprescindível. O que se esperaria de um trabalho que retrate um músico? Correção nas obras que comporão a banda sonora: e, com acerto no momento em que tal importância ganhará mais espaço, o que se quereria ouvir passará a habitar seus espaços – isso sem falar na deliciosa escolha das atrizes que alegram os olhos masculinos impactados com tamanha beleza desfilante..

E com capacidade nas escolhas o filme se vê montado por diversos aspectos na composição do todo, cada um de qualidade a não ser questionada, sem muletas facilitadoras (portanto, com imaginação farta e de qualidade para fazer justiça ao protagonista). Por vezes, parecendo peça bastante rara e instigantemente magnética.

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