Potiche - Esposa Troféu :


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Original: Potiche
País: França
Direção: François Ozon
Elenco: Catherine Deneuve, Gérard Depardieu, Fabrice Luchini, Karin Viard.
Duração: 103 min.
Estréia: 23/06/2011
Ano: 2010


Ozon e seu cinema único!


Autor: Cid Nader

Parece quase que tão justo quando a grama gostar de água e se mostrar sempre muito mais viçosa após uma chuva, ou quanto eram afinados Fred Astaire e Ginger Rogers com seus passos “dialogando” em excelência com o que as lentes capturavam de beleza plástica: François Ozon sabe como poucos (talvez Almodóvar) trabalhar com mulheres em seus filmes, que se travestem de uma “falsa” facilidade e brilho enganador, para abrigar com raridade explanações de atuações que somente podem ser arrancadas do âmago feminino, sem choques, com certezas, por quem as conheça (ao menos em parte) sem o determinismo imposto pela observação machista e, consequentemente, dominadora. Além do mais – como que para reforçar essa calculada intenção em fazer pensar, aos observadores mais toscos, que o diretor trabalha com um cinema superficial e de pouco vasculhamento -, seus trabalhos capricham de maneira especial nas faixas sonoras de suas elaborações, pois quase como um mantra que se repete e repete, são enfeitados com muita música sendo cantada e dançada pelos protagonistas (e daí a ligá-lo ao que se fazia em Holywood na época dos glamurosos filmes musicais, ou ao outro modo, mais melancólico, de embutir musicalidade que foi o professado por Jacqués Demy, chegar-se ao seu modo de compreender cinema, somente um passo .

Não é uma continuidade de procedimentos que o diretor faz desde seu surgimento – talvez tenha ganhado corpo e preferência mesmo a partir de “Oito Mulheres” (2002), onde surgiu a parceria com Catherine Deneuve -, já que bem no início apostava numa maneira mais visceral de argumentar seus temas, mas é a que tem criado a marca. Em Potiche: Esposa Troféu, enxergar pouca relevância na forma de abordagem que ele trouxe à tela (um filme que discute a liberação e independência da mulher, e as questões sindicais diante do poder patronal), significa não compreender as diversas possibilidades que qualquer arte oferece para sejam pintados com diversas camadas os assuntos tocados. Inferir superficialidade no modo de realização dele é como ver nas músicas de Chico Buarque (em época de ditadura plena), por exemplo, um amontoado de construções simplórias ou sem nexo.

Ozon toca profundamente nos temas citados nesse seu novo trabalho: traz à tona a mulher fiel e boboca acomodada diante do conforto permitido pelo “não contestar”, e que, numa guinada, refuta tudo ao perceber-se mais forte do que é; traz a submissa ao patrão, que prefere o gozo do prazer artificial, desde que se mantenha bem estabelecida no emprego (mas que tem muito mais nuances entranhadas na cabeça, somente no aguardo de algo deflagrador); aborda a questão da homossexualidade enrustida em tempos mais pesados e menos condescendentes; cita prazeres e traições impensáveis, vindas de alguém “exemplarmente” fiel; fala de política e suas variações; e escancara a tensa relação entre empregados e patrões usurpadores. Querer que o diretor, para além de trazer tantos temas a um único filme, o faça como se fosse um Ken Loach totalmente engajado, ou Costa Gravas sumariamente político, é não enxergar as muitas virtudes dele, que vêm sendo complementadas a cada acumulo de um novo filme.

O diretor não é fatalista, nem concludente. É alguém que sabe manipular finamente as ferramnetas que têm à mão, e conclui um filme como esse, que traz os temas sim, aborda-os sem medo, sim, mas mantendo o bom traquejo da arte: não dá para negar a excelência do quadro, a raridade do ângulo, a muito justa inserção dos momentos musicais (belos e justos, como se fossem uma homenagem àqueles idos dos sessenta virando setenta), a sempre rara qualidade se repetindo na utilização das luzes, os flash-back rigorosamente confeccionados, mas, principalmente, o modo como obtém “mais” de seus atores. Todos bem, todos corretos, e uma inacreditável composição oferecida por Catherine (pensar em falar nesse como sua maior atuação poderia parecer insano, mas...). Ozon, além de gostar de trabalhar com mulheres, consegue obter o máximo delas; e pensar na Deneuve se entregando plenamente, já seria o suficiente para se acreditar no poder que ele exerce e exercita.
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