Meia Noite em Paris:


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Original: Midnight in Paris
País: EUA/Espanha
Direção: Woody Allen
Elenco: Kurt Fuller, Owen Wilson, Marion Cotillard, Michael Sheen, Tom Hiddleston,
Duração: 100 min.
Estréia: 17/06/2011
Ano: 2010


Woody Allen cada vez mais sereno


Autor: Cesar Zamberlan

Mais do que um passeio por outras paragens, os últimos filmes de Woody Allen revelam, não diria um pessimismo ou amargor em relação à vida, mas, sim, a aceitação da vida tal qual ela é. Visão que me parece cada vez mais próxima de uma concepção trágica da vida. Trágica do ponto de vista filosófico, pelo qual diante de uma verdade inexorável, a morte, é preciso viver com alegria aquilo que nos é dado (e que aqui sirva de trilha a música de Cole Porter, Let´s do it).

Meia Noite em Paris pode parecer, à primeira vista, triste e é de certo modo, pois o personagem passa da nostalgia – no filme a ideia de um passado melhor que o presente - à aceitação de que não é o presente, seja lá qual for, que é insatisfatório, mas que a vida em si é que é insatisfatória. Allen sintetiza esse conceito quando o personagem Gil em mais um salto ao passado, volta com a musa Adriana para a Paris da Belle Époque e encontra, entre outros, com Toulose Lautrec. Ela entusiasmada com a possibilidade de viver o que ela chama de era de ouro de Paris resolve ficar naquele tempo; Gil, que já passou pela mesma situação, diz a ela exatamente o que escrevi acima.

Gil (Owen Wilson), como quase todos os atores principais dos filmes de Woody Allen, atua como se fosse o próprio diretor, fazendo dos personagens um ser único, um alter-ego do diretor nova iorquino – passa, neste ponto do filme, a entender, e mais que isso, aceitar, que todos os lugares são um só e que todos os tempos se parecem em certa medida, pois são resultados da insatisfação do homem com sua condição de homem. Situação que só pode ser alterada quando essa condição é assimilada em função de um gozo daquilo que resta: viver da forma mais aprazível possível dentro das circunstâncias dadas.

Nessa linha de raciocínio, a crítica que Allen faz à noiva de Gil e seus pais burgueses, bem como ao amigo pedante, mostra pessoas cada vez mais vazias em meio a valores que poucos dizem, mas servem de blefe a essa insatisfação não latente. E, se os lugares mudam, as pessoas não, pois esse vazio é de todos os lugares.

Ver o novo filme de Allen como uma mera brincadeira de viagem no tempo, pensar no artifício como fim e não como meio, é pouco para aquilo que Allen escreve com a habilidade de sempre. Passou o tempo, e a neurose de Allen foi substituída por uma serenidade encantadora.

Fora isso, como é delicioso ver o ambiente de Paris dos anos 20 - tão bem retratado por Gertrude Stein em seus livros autobiográficos -, nas telas.

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