Estamos Juntos:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Toni Venturi
Elenco: Cauã Reymond, Leandra Leal, Lee Taylor.
Duração: 96 min.
Estréia: 03/06/2011
Ano: 2010


Alcançando seu centro.


Autor: Cid Nader

Em dados momentos de Estamos Juntos o diretor Toni Venturi aborda a questão dos sem teto (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto do Centro) de São Paulo, retomando (por forma, manejos e ideais) o que talvez seja sua maior preocupação cinematográfica: o tratar e falar das pessoas de sua cidade. Nesses instantes do filme volta a se valer das imagens sujas, velozes e captadas sob baixa qualidade (mas necessárias assim, pois indicam a urgência do fato acontecido sendo capturado para virar alvo jornalístico ou documental), revelando reuniões, trechos de uma invasão (me parecendo que utilizou algumas imagens de seu documentário sobre o assunto), aproveitando para reforçar o elo entre o núcleo de dramaticidade pessoal e amorosa composto pelos protagonistas principais, e o “núcleo veracidade”, que é a observação dos desvalidos materiais, na figura da médica interpretada pela atriz Débora Duboc.

O diretor anda oscilando de maneira evidentemente ascendente em sua carreira, principalmente a partir do instante em que percebeu seu lado documentarista - sempre observando seu mundo mais próximo (fisicamente nas figuras desses desvalidos da cidade, ou emotivamente – algo bastante notável em “Vocacional, Uma Aventura Humana” -, e seus filmes têm ganhado consistência dramatúrgica com isso. O que aconteceu no início foi que as formas buscadas se sobrepuseram demais às questões, impondo-lhes aspectos artificiais demais, o que fragilizava (ou as evidenciava frágeis desde o nascedouro) demais as questões tratadas como as que deveriam ser as principais condutoras de seus trabalhos. São questões passadas, que talvez aclarem melhor após uma revisão (com a consequente adição dos últimos). Por vezes obras se façam mais concretas quando pensadas num todo autoral, e é possível que Toni esteja montando um conjunto, por sua dedicação aos temas que tem tratado, e repetido.

De toda forma é válido perceber que esse Estamos Juntos ajunta em sua parte “urbana não tão mau de vida assim” uma jovem médica, Carmem (Leandra Leal), um amigo gay vivido por Cauã Reymond (e se o coloco “somente” como gay é porque sua função no filme acima de tudo é justamente a ser um personagem típico desse segmento), e um músico argentino ávido por experiências sexuais. Compõe um triângulo que por vezes parece de boa formatação dramática, mas por muitos outros instantes decai para figuras que poderiam muito bem ser um arremedo “cartilhanesco”. Tais momentos do filme fazem pensá-lo, por vezes com carinho (há algumas boas situações abordadas e alguns bons momentos de composição emocional), por outras, com certa impaciência (pois são aqueles em que parecemos enxergar personagens desenhados demais aos moldes que já se faz em outros trabalhos – os de cartilha).

A transição entre os dois mundos abordados também ganha aspectos louváveis (principalmente pela sincera dedicação ao tema dos sem teto), tanto quanto merece suspeição (pois há um didatismo que exacerba demais, emprestando artificialidade – o falar e o fato ocorrido sobre transar sem camisinha é o melhor (ou pior) exemplo desses instantes). Como obra ficcional (e aí podemos destacar alguns belos momentos de imagem – principalmente os que nos aproximam dos personagens – obtidos pela fotografia de Lula Carvalho) é sem dúvida seu melhor filme: o que mais se aproxima dos bons resultados obtidos nos documentários. Talvez Toni esteja alcançando o seu centro, ao mesclar o evidente desejo em filmar dramas e histórias de ficção, com as ações mais certeiras que evidencia quando trabalha na faixa das verdades urbanas.

Leia também: