Minhas Tardes com Margueritte:


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Original: La tête en friche
País: França
Direção: Jean Becker
Elenco: Gérard Depardieu , Gisele Casadesus, Sophie Guillemin.
Duração: 82 min.
Estréia: 27/05/2011
Ano: 2010


Será que é isso mesmo?


Autor: Cid Nader

É simpática, bonita, e até bem emocionante a relação estabelecida entre uma senhora bastante idosa e culta (como os franceses sempre intentam ser e demonstrar, principalmente ostentando a leitura como seu veículo de ligação mais forte ao “grande e bom pensamento”), Margueritte, com singela interpretação de Gisèle Casadesus, e um tosco homem parecido (física e mentalmente) a saído e restado de uma caverna, Germain, sob mais uma competente interpretação de Gerard Depardiéu.

Se enveredasse para a minha quase secular birra com as intenções reais francesas, camufladas sob os aspectos discursivos superficiais de suas discussões, poderia imaginar que a figura simplória e “boa” de Germain representa o “bom negro” africano, ou o “trabalhador árabe”, lá da ex-colônias: gente que merece o respeito e a proteção dos francos, sempre justos e superiores o suficiente para expiar suas culpas por atos que têm de ser demonstrados e ostentados para que o mundo veja o quão são especiais. Se enveredasse!

Mas como não tenho a intenção de parecer um eterno catador de sub-culpas do pessoal de lá sob competentes jogos de sedução artística (não só no cinema), e nem a de parecer um fanático mouro lutando contra qualquer ato cruzado, sem jamais acreditar em reais boas tentativas por alguns atos executados, talvez fosse mais justo se falasse da boa cumplicidade entre os dois protagonistas principais, que rendeu filme cativante em boa parte de sua existência na tela; ou se falasse da atenção aos personagens secundários (cada um com características bem definidas, sendo que algumas cumprem função que avançam ao simples se comportar bem por trás da história matriz).

Jean Becker (o diretor) sabe conduzir bem seus filme por planos leves e bem compostos, e, aqui, não permite jamais que solavancos fortes demais atrapalhem a jornada de descoberta (em tom quase fabular), de interação, de reconhecimento e de avanço do ser tacanho para um patamar que só o revela na totalidade de sua “bondade” depois que foi tocado por um dos únicos “seres de fora” que procurou entendê-lo. Talvez devesse questionar se tanta bondade e singeleza caiba como arte que tente algo mais – mas o cinema não é o lugar, infelizmente, que obrigue sempre a busca do novo -; talvez devesse elogiar a fluidez emotiva que o filme consegue em ascensão evidente e bem produzida...

Minhas Tardes com Margueritte evidentemente tem seu público facilmente reconhecível. Mas essa coisa da fera sendo domesticada pela bondade e justeza acima do bem e do mal que brota das carinhas e das atitudes brancas dos franceses, sempre insiste em me incomodar. Talvez eu que devesse procurar um psicanalista para parar de ver coisas ruins em todos os cantos.

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