No Olho da Rua:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Rogério Corrêa
Elenco: Murilo Rosa, Gabriela Flores, Pascoal da Conceição, Leandro Firmino da Hora.
Duração: 100 min.
Estréia: 13/05/2011
Ano: 2010


Há evidentes desacertos


Autor: Cid Nader

Há um evidente descompasso entre “as partes” nesse primeiro longa metragem dirigido por Rogério Corrêa. Tão evidente quanto a sensação de “coisa um tanto fora de época” que o filme passa na abordagem de uma situação (a do desemprego empreendido pela voracidade de estrangeiros investindo no país, e fazendo da falta de oportunidades em outras empresas, moeda forte para que se aceitem demissões e diminuições de pessoal com anuência dos “sobreviventes”) que não faz mais muito parte de nossas estáticas já há uns bons muitos anos – após ter visto o filme, o diretor disse numa coletiva que a ideia original era da década de 90, o que faz aceitar mais brandamente tal quesito.

Tal descompasso se estabelece durante todo o trajeto de No Olho da Rua, causando alguma sensações do trabalho se sustentando por partes que tem vida quase individual, não mantendo o mesmo nível de qualidade (nem de credibilidade) que se nota, principalmente, no início da história. História que inicia bem, com a composição de um típico lar de classe média metalúrgico, aditado pelo complemento bastante realista da vida na fábrica onde trabalha o chefe dessa família (Oto, numa interpretação bem concreta de Murilo Rosa): pelo ambiente, pelo relacionamento com os amigos, pelo entorno exterior que remete à luta sindical como fator sempre presente e “marcante de ideário”. Início direto, que insinua o filme como mecanismo de concretização naturalista – pelo bem ou pelo mal, uma atitude comportada que não indica que tentativas mais ousadas (arriscadas) se estabelecerão na sequência.

Mas a trama avança, e tanto quanto, anormalidades narrativas (de várias formas: de texto, de construção imagética, de encadeamento) assomam, fazendo parecer que não há casamento entre as partes, o que cria sensações de estanquidade nada desejáveis para algo que se pretenda único – se trata aqui de um longa, e não da aglutinação de curtas. Algumas situações (anacrônicas ao bom início direto) vão avolumando quase individualmente, e o trabalho perde foco, enfraquece. O tempo (físico: o das horas, dias e meses) ganha dimensões que impedem aceitar com naturalidade os fatos que vão surgindo. Enquanto Oto perde o emprego e parte em busca de outras formas de subsistência, a gravidez de sua mulher, Camila (Gabriela Flores), perde a naturalidade da urgência do mês que faltaria até o momento do parir – muitas situações sucedem num período de tempo que parece bastante exíguo para tal (tempo que também é mal calculado lá pelo final do filme, quando refere à roupa puindo, re-contato com a família...): é aceitável e bem-vindo tal desapego à rigidez das horas, mas quando a proposta está embutida na questão – o que não pareceu o caso, aqui. A força e carga maior entregue ao Algodão (Leandro Firmino da Hora) - que cumpre um lado técnico interessante, com a mescla de suas imagens amadoras, embutidas e emaranhadas, às “oficiais” - não revela um personagem de matriz razoável: descabido em sua entonação que mistura vaticinação contra o sistema, ao mesmo tempo que sugere comportamento “a la cartilha institucional” (uso de camisinhas e afins, por exemplo).

Várias historietas vão se estabelecendo em No Olho da Rua, parecendo não contribuir em nada para um todo: há a situação bem fake na festa dos milionários, o histrionismo das pregações evangélicas, a invasão do hospital... Talvez, desbotadas tais marcações (de cenas e alguns personagens), talvez, relembrando o início certeiro, ou até mesmo o bom e crescente “amaluquecimento” de Oto (e, talvez, seja nessa chave – a da “perda de chão”, para o metalúrgico desempregado - que Rogério tenha pensado para modificar os rumos que sugeriam um trabalho mais conexo), o filme ganhasse. Porque não há dúvidas sobre a qualidade do diretor, quando lembrado em seus outros momentos de carreira, tanto quanto a potência de sua equipe técnica (basta ler com atenção os créditos finais). E há nele, também, o mérito da obra nacional que foge de um padrão estranho, que tem privilegiado, e muito, as nossas classes médias como alvos a serem tratados.

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