Caminho da Liberdade:


Fonte: [+] [-]
Original: The Way Back
País: EUA
Direção: Peter Weir
Elenco: Colin Farrell, Dejan Angelov, Yordan Bikov, Dragos Bucur. Ed Harris.
Duração: 132 min.
Estréia: 13/05/2011
Ano: 2010


Grandioso. Mas...


Autor: Cid Nader

Nem sempre é possível se conhecer todas as histórias épicas da humanidade. Nem sempre é verdade que o mundo seja uma aldeia aonde todos os fatos, em algum momento, chegarão ao conhecimento mais amplo. Ao aliarem-se momentos épicos e “todos os fatos” (ou historietas de matiz por vezes individual), poder-se-ia tomar como exemplo a Segunda Grande Guerra (talvez a maior marca da humanidade, de onde brotaram infinidades de situações épicas, geradas muitas vezes por fatos solitários, ou de “pouca monta”).

A expressão, “baseado em fatos reais”, tem constituído uma muleta na maior parte dos filmes que tentam se privilegiar do fator “impacto humano” agindo mais fortemente sobre as sensações das plateias do que agiriam motes criados ludicamente, ou por viés de invenção artística. Chega a constituir equívoco criativo a explicitação de tal frase, tanto quanto tem gerado trabalhos que ficam bem distantes de serem entendidos como essenciais, ou apreciáveis - no sentido de se fixarem com boa manipulação das técnicas cinematográficas.

O australiano Peter Weir – que surgiu de maneira esperta/dinâmica com uma espécie de thriller, lá em 1975, com “Piquenique na Montanha Mágica”, ampliou-se mundialmente com (já aí) o épico Gallipoli (1981), para alcançar total reconhecimento com o grande “A Testemunha” (já nos EUA) -, trouxe à telona uma situação que só teria validade mesmo para os pouquíssimos que dela participaram, mas que veio à ampliação pública pelas letras de Slamovir Rawicz, com seu livro de 1956, “The Long Walk: The True Story of a Trek to Freedom” (um ex-soldado contando experiência própria). Em Caminho da Liberdade recria, em filme, uma situação que tinha como medida de exportação a valentia de alguns homens que fogem da Sibéria (para onde eram mandados os presos políticos e comuns de Stálin), durante o grande conflito bélico, na tentativa de alcançarem a liberdade na Mongólia. Ao grupo ajunta-se uma garota, e ao primeiro destino alguns milhares de quilômetros a mais, além de algumas outras fronteiras, com desertos e geleiras se alternando na “paisagem”, para que fosse criada a intenção maior que era a de transformar tudo em espetáculo visual grandioso, que teria como molas propulsoras as situações de superação e dor.

O que resultou foi um filme do qual não se poderia cobrar falta de cuidados cenográficos, de impacto visual, de sofrimento desumano dos personagens. Um típico trabalho que busca o sofrimento (engajamento, dor, sede, horror, piedade) do público como o maior aliado para justificar o fato de sua existência. Seria justo caracterizá-lo como o exemplo certo do que a grande indústria preconiza como ideal de cinema (e isso com todas a implicações depreciativas, mas com as “virtudes” que tal conhecimento de causa dessa indústria domina em favor do espetáculo para quem queira o “somente” espetáculo). Não há a observação detalhada das partes que significaram tanto em “A Testemunha”, mesmo que se pense, numa mirada fugaz, que os tipos que passam pela tela sejam individuais em suas crenças e origens diversas: o que acontece aqui, com o amontoado de locais e gentes que preenchem os espaços, é que a busca está o tempo todo na tentativa de evidenciar a atitude heróica de sobrevivência humana, e acaba-se por costurar todas as desejáveis individualidades sob um mesmo manto de dor e esperanças.

Na realidade, nada diferente do que costuma ditar a eficiente cartilha do cinemão em busca da construção correta do “modelo dramático” obtido (o que inclui a necessidade e citar o “baseado em fatos reais”): tal fato,repita-se, se deu, e o filme é tranquilamente apreciável. Mas e aí? E quando se pensa naquele Peter Weir que iniciava sua jornada americana, em 1985, atento aos detalhes de uma comunidade religiosa, tentando pensar na sua relação com o mundo mais mundano, conseguindo introduzir tais “minúcias” e sutilezas no jogo dinâmico de uma história policial? Talvez seja isso que se deva cobrar de Caminho da Liberdade: mais detalhes humanos, em uma história que tenta ser vendida como uma epopeia da espécie.

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