Não se Pode Viver sem Amor:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Jorge Durán
Elenco: Cauã Reymond, Angelo Antonio, Victor Navega Motta, Simone Spoladore.
Duração: 102 min.
Estréia: 06/05/2011
Ano: 2010


Raspou ser muito bom


Autor: Cid Nader

Não se Pode Viver Sem Amor é sem sombra de dúvidas um trabalho que tenta se abastecer e sobreviver sob parâmetros de comportamentos e imagens que evocam o lúdico: mas num sentido de climas e imagens não facilmente fixáveis pelo olhar, o que poderia remeter a intenção do diretor à criação de sensações oníricas. Durante todo o trajeto de sua existência em tela, o filme exibe momentos e sequências que poderiam ser frutos da imaginação, desses sonhos tentados, de fábula moderna que não pretenda inserir catarses ou "morais da história". A sensação por entre imagens enevoadas, de luzes difusas, da emanação se sensações pictóricas de matizes noturnas leves (algo que se percebe no lusco-fusco de cidades com baixa iluminação artificial, ou no imaginado daquela inimitável luz noturna nos verões dos países do "sol da meia-noite"), é de que a tentativa de acompanhamento das histórias narradas (três, que em algum momento se cruzarão) deve ser completada, para além das estranhezas dos motes, pelo entorno físico que as abriga.

Tudo se passa num Rio de Janeiro periférico (no sentido de pensá-lo tendo como "centro" seus cartões postais, não exatamente pela geografia), que é de pouco reconhecimento para quem só o conhece turístico, mas que é tão representativo da identidade carioca quanto o mar, ou a boemia. Essa escolha de Jorge Durán (diretor chileno radicado no Brasil) poderia ser imaginado como fruto de seu relacionamento com trechos incomuns da cidade, ou como simples constatação de que tais locais se adequariam com melhor encaixe num texto que estaria bem longe de ser "solar". Potencializando mais ainda tais escolhas e desejos de repasse, as opções de ângulos e planos foram pensadas para tirar do chão pés que procurariam firmeza, causando sensações de vagar ao esmo, num evidente desejo de trazer o público para dentro dos climas buscados. Algo que consegue por um bom período, e que fez pensar a proposta como uma interessante tentativa.

São histórias que falam de buscas, de perdas, de relacionamentos fortemente humanos: o filho incomum - que tem certa ligação com as forças da natureza e com as do desconhecido, também - que vai com a mãe (Simone Spoladore tem um jeito de atuar que sempre casa muito bem com personagens incomuns) em busca do pai que quase não conheceu (com desfecho satisfatório, longe do que se pressuporia comum); o outro filho (Ângelo Antônio), já um adulto, em, fim de relacionamento amoroso, com indecisões profissionais, que tem de dedicar a atenção ao pai ancião (uma outra grande atuação do ótimo Rogério Fróes); e o rapaz apaixonado por uma garota que dança em boate, e que se mostra disposta a tudo para tê-la definitivamente. Histórias narradas de forma circular, de dramaticidades variantes, mas que nunca chegam a ser dispensáveis - todas têm seu valor, só que sem conseguirem manterem-se poderosas pelo tempo ideal.

Não se Pode Viver Sem Amor poderia ser um grande achado, comparado à média maior do que tem ido a cartaz por aí - sendo que há tantas obras instigantes circulando por festivais, sem que haja previsão de que venham algum dia a fazer parte do mundo comum (o das estreias em salas de cinema). Mas sucumbe no seu desfecho, não chegando a intrometer uma "moral da história fabular", mas resolvendo que toda a engenhosidade onírica deveria oferecer conclusões, mastigações, lógicas (e há ali, uma lógica quase intragável). Raspou ser muito bom.
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