Bróder:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Jeferson De
Elenco: Caio Blat, Jonathan Haagensen, Silvio Guindane.
Duração: 93 min.
Estréia: 21/04/2011
Ano: 2010


Com destreza, diz o que pensa.


Autor: Cid Nader

Jéferson De, como nosso cineasta contemporâneo mais panfletário sobre a questão negra no Brasil, finalmente entrou no mundo dos longas-metragens. De carreira sólida com seus curtas ganhou mais notoriedade com o movimento que criou já há anos, “Dogma Feijoada”, onde a causa era prioridade única a ser ostentada como discussão, via cinema. Bróder era muito aguardado quando passou pela primeira vez, em Paulínia, e eu, particularmente, tinha muito interesse no resultado – acompanho a trajetória do diretor desde que ele surgiu em nosso cenário, com consciência de que seu bom discurso vem ornamentado por trabalhos ligeiros, mas não tão compactos em qualidade, num todo.

E o longa é meio isso: como continuidade, surgiu com discurso bom e incisivo, e dúvidas na confecção. Mas vejo isso como um ponto positivo nele, porque, por falar de entranhas muito particulares de uma região segregada da cidade, se tornaria chato ou pedante se pretendesse ser compreendido como peça de rigor inquestionável e discurso inapelável. O bacana da carreira de Jéferson é que seu discurso e cinema se mesclam para criar uma obra real, de verdade, que fala para a gente e se faz compreendida – sem ser superficial, também. Acontece exatamente isso dessa vez.

O filme, ligeiro em seu andamento – que procura não permitir muito tempo de respiro, nisso lembrando algo de setores de uma cinematografia paulistana -, tem caráter e verdade no modo em que mostra uma região falha da sociedade, por aspectos falhos humanos, paralelizando seu modo narrativo a essa verdade. As falas parecem comuns (mas são pungentes quando notadas dentro de seu contexto), os atos parecem fugazes (mas dialogam de modo honestíssimo com o entorno que os abriga, criando cumplicidade, não isolando a intenção e o alcance das situações por formalismo indigesto ou pretensioso), as soluções parecem fáceis (tanto quanto observar à distância a pobreza instalada nesses casos pode parecer fácil, até pitoresco, quando não atentamos a âmagos das questões). A força do filme se constrói aos poucos e calmamente, por vias comuns, porém, com objetivos complexos alcançados ao final, e com o discurso contado (forte e impactante) sendo feito como que numa história narrada ao acaso.

Jéferson tem dom para a coisa, e o fato de abraçar sua causa para tentar que ganhe espaço de reconhecimento público via imagens é uma bênção prestes a ganhar mais espaço – longas-metragens, no mínimo, têm mais mídia do que curtas. Sem esquecer a qualidade excepcional das músicas que embalam o filme. E sem esquecer, principalmente – e essa vai para mim e para quem enxerga cinema como eu -, o que foi obtido pelas lentes de Gustavo Hadba: com um plano–sequência bem bacana abrindo os serviços; ou com cenas dentro do carro que descortinam diferenças (afinal, num veículo, se pula de uma camada social a outra, geograficamente, de modo muito ligeiro) e criam ambientes diversos; por interessantes zooms curtos e ligeiríssimos, do nada, no meio das ruas secas, remetendo a lembrar momentos de filmes de faroeste; e pelo inetante final (enquanto os créditos sobem), que desvenda a região vista de cima, mostrando a amplidão impactante daquele isolamento público dos do Capão Redondo. Tais resultados estéticos remetem a lembrar que o trabalho não é confeccionado como um drama grande preconizaria, inciando nos meio dos ambientes filmados, o que faz com que a história já inicie em "andamento". Dá pra entender?

* O texto foi feito na época em que o filme foi visto em Paulínia. Parece que há recortes novos nessa cópia que estreia. Se, quando for visto novamente, forem notadas questões que mereçam novas considerações ou influam diretamente no resultado, obviamente, uma nova análise será tentada.

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