Amor?:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: João Jardim
Elenco: Lilia Cabral, Júlia Lemertz, Eduardo Moscovis, Letícia Colin.
Duração: 100 min.
Estréia: 15/04/2011
Ano: 2010


Não gosto, mas fará sucesso.


Autor: Cid Nader

Amar esse filme parece que será uma coisa facilmente constatável após a reação do público do festival de Brasília (quando o vi) após sua apresentação (as cobaias que o experimentaram pela primeira vez). E tal reação me faz pensar o que passa pela cabeça de cinéfilos que se deixam enganar por produtos que tentam se vender como grandes sacadas inventivas, e na realidade são verdadeiros “me compre, seu inocente”. Qual a razão de alguém imaginar sinceramente na qualidade de criação ou ousadia num trabalho que tem em seu âmago toda uma estrutura de falseamento oco (inócuo) como sustentação e único caminho narrativo – a ponto de não permitir escapes ou outras alternativas de contemplação, cerceando possíveis histórias verídicas (ah, as nefastas histórias verídicas alertadas nos créditos de filmes servindo de muleta para tais modelos de acintes) por exercício de interpretações tão falsos quanto dispensáveis.

Nem vou entrar na provável toada que deverá ser a bola da vez entre críticos, questionando o filme e o diretor por serem cópias ridículas do que Eduardo Coutinho fez em “Jogo de Cena” (sendo que, inclusive, o é mesmo). Seria até dar argumentos para justificativas sobre um resultado somente equivocado, num trabalho que queria ser reverencial... Pois Amor? é muito mais danoso do que somente um equívoco – equívocos perdoam-se e compreendem-se.

João Jardim criou aqui um trabalho que quer se vender enganando incautos e inocentes. Foi buscar depoimentos de violência entre casais para criar seu filme factóide. Passou-se como revolucionário trazendo tais histórias verídicas de desespero e paixão (que desviam, por vezes, de carinhos e juras, para tapas e pontapés), mas já de cara querendo vender seu peixe dourado como a “incrível” bolação que, para preservar tais depoentes de qualquer coisa que você leitor queira imaginar (constrangimento, exposição, humilhação...), insinuava ser mais honesto e “mais revolucionariamente artístico” explaná-las, utilizando atores para protagonizarem tais seres infelizes no amor.

O que sucede a partir daí na telona é um show de vazio cinematográfico, com tomadas recatadas insinuando momentos de beleza estética, trechos de corpos recatadamente preservados da invasão do olhar do espectador (que já estava devidamente excluído da possibilidade de se ver invadindo as vidas das pessoas reais retratadas – se é que existem pessoas mesmo e depoimentos individuais ao modo retratado, e não um apanhado geral), divisões de atos por “papéis de parede” semelhantes aos de folhinha de calendário, música insossa e Pop de botequim fino para criar o início sonoro de cada trecho, muitos cortes e emendas para imprimir... sei lá o quê de verdade, esteticamente, em seu formalismo – além de um plano/contra-plano bastante equivocado em sua “intenção” novidadeira, quando uma mesma história é relatada por duas atrizes diferentes, significando o depoimento de uma única mulher.

O que sucede a partir do início na telona é um show de horrores que me leva a questionar firmemente como João pode ter optado por seguir tal caminho – sendo que sou dos que gostam de sua carreira como documentarista -, por pensar nessa criação de substituições, por talvez querer imitar a alguém outro, tendo a coragem de entregar um produto que na realidade não passa de truqueiro? Ver atores agindo com caras sérias e a câmera observando-os de tal maneira que ângulos e opções de corte levassem à sugestão de que se entregavam de verdade às suas caracterizações – com a imagem congelando em reações que “adviriam” do pós processo de interpretação encerrado (olhos marejados, expressões firmes e fortes evocando a certeza de que haviam cumprido uma função social acima de tudo...) -, ou ter de ouvir as perguntas “fora” dos microfones dos “entrevistadores” para criar um clima de verdade dentro da verdade interpretativa (para reforçar que aquilo era truque, mas que havia todo um processo articulado para fazer crer, ao público incauto, que a interpretação estava servindo a um modelo específico e superior, ou coisa do gênero), é coisa penosa para quem crê que a arte deve caminhar por caminhos de atração e cooptação mais lúdicos.

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