Homens e Deuses:


Fonte: [+] [-]
Original: Des Hommes et Des Dieux
País: França
Direção: Xavier Beauvois
Elenco: Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Olivier Rabourdin, Philippe Laudenbach.
Duração: 122 min.
Estréia: 15/04/2011
Ano: 2010


Homens, homens de Deus e escolhas.


Autor: Fernando Oriente

Homens e Deuses é um filme com pretensões altas, um desafio se pensarmos em qual terreno de discussões o diretor Xavier Beauvois decide penetrar. O longa é, antes de tudo, um estudo da dualidade humana, do conflito entre vocação e realidade, entre fé e materialismo. É uma obra sobre escolhas, renúncias e sobre a fragilidade humana mediante a uma violência impossível de ser controlada. Sobreviver na negação ou morrer no cumprimento de um voto espiritual? A tudo isso, soma-se a presença francesa em território argelino e tudo o que isso implica em questões históricas e em relação aos conflitos imperialistas do século 20. Ao centrar seu drama na vida de monges católicos franceses de um mosteiro na Argélia em plena guerra civil nos anos 90, Beauvois divide os conflitos existenciais de seus personagens em duas frentes: temos a questão meramente material da sobrevivência e dos temores humanos e, ao mesmo tempo, existe uma tensão maior, metafísica, que envolve os quesitos religiosos da fé e da entrega a um amor espiritual que prega a renúncia aos temores mundanos e uma aceitação da condenação em detrimento à entrega do corpo para a realização dos deveres da alma.

Esse contexto não faz de Homens e Deuses um filme sobre religião, embora a religião, seus paradigmas e dogmas, façam parte da complexidade humana desses homens de Deus e seja fator ponderante em suas escolhas. Uma das maiores qualidades do filme está em sua primeira parte, na forma em que a rotina dos monges é mostrada. Vemos cenas bem construídas de um cotidiano simples, de integração entre os religiosos e o ambiente que os cerca. O espaço físico em que os planos são construídos é bem capturado por Beauvois e a relação entre os monges, esses espaços e a comunidade local é conduzida de forma competente por uma encenação segura e discreta. As ações dos tipos, seus pequenos afazeres, bem como os diálogos e as cerimônias religiosas praticadas pelos religiosos compõem um painel preciso da realidade cotidiana e dos aspectos materiais da reconstrução dramática.

Quando as tensões passam a surgir na tela, elas são introduzidas de forma sutil, mas bem acentuadas, e os reflexos do conflito iminente e da violência que se aproxima é transferida para o interior dos personagens, que refletem em suas expressões, gestos e diálogos os perigos que se aproximam e os temores que eles evocam em todos. As certezas de fé e renegação a que os monges se mantinham ligados são substituídas pelo medo; as convicções de entrega espiritual passam a ser questionadas mediante a possibilidade de suas vidas estarem ameaçadas de forma real e incontornável. O medo da morte, a saudade de seu país de origem, de familiares e de toda uma vida na Europa que foi abandonada em nome de uma causa passam a abalar os votos de renúncia e até a questionar o real papel deles como servos de Deus e dos homens. Ficar e possivelmente morrer ou abandonar o papel de devoção cega a causa espiritual? Servir os homens como homens de Deus ou fugir e salvar a si mesmos como simples homens?

Esses dilemas dão força ao filme e, ancorado em atuações fortes do elenco (com destaque para Michael Lonsdale e Lambert Wilson) e a uma ótima direção de arte, Beauvois constrói um drama sólido que não se restringe aos aspectos superficiais das tensões existências a que está inserido. O diretor consegue aprofundar a densidade das situações e dos conflitos internos de seus tipos ao mesmo tempo em que imprime uma tensão crescente em relação ao que está fora de quadro: a guerra civil, os assassinatos e a situação política e religiosa da Argélia em fins do século passado. Novamente a competente apreensão dos espaços onde as cenas acontecem e das ações recriadas conferem ao longo o que ele tem de melhor.

Mas o que poderia ser ótimo em relação à complexidade das situações e dos tipos acaba sendo comprometido por algumas escolhas de Beauvois. No momento em que todos os monges decidem ficar, embora cada um tome a decisão de forma pessoal, o filme abraça a causa da renúncia de forma quase mecânica e retira as possibilidades de maiores conflitos que seria a não unidade dos religiosos. Ao retratar de forma simples demais a decisão dos personagens em se portarem como um todo e não ampliando as tensões que levaram a uma união frágil e provavelmente conflituosa, Beauvois acaba por tomar partido do lado da vocação espiritual em detrimento dos temores mais humanos que compõem também os homens de Deus. O medo é reprimido pelos personagens que acabam por se entregar a um destino maior, mais nobre e faz com que as complexidades puramente humanas (medo, sentido de preservação, dúvidas de fé e razão de ser) sejam colocadas em segundo plano pelo diretor.

Xavier Beauvois, que já mostrou seu talento como diretor no bom “O Pequeno Tenente” (2005), faz de Homens e Deuses um filme interessante e correto, com bem mais qualidades do que a média de longas produzida atualmente, mas deixa escapar a oportunidade de realizar uma obra mais complexa e densa e acaba por fugir exatamente da maior exploração dos conflitos a que o filme originalmente se propõe.

Leia também: