Turné:


Fonte: [+] [-]
Original: Tournée
País: França
Direção: Mathieu Amalric
Elenco: Mathieu Amalric, Miranda Colclasure, Suzanne Ramsey, Ângela de Lorenzo.
Duração: 111 min.
Estréia: 08/04/2011
Ano: 2010


Irregular, mas cheio de qualidades


Autor: Fernando Oriente

Mathieu Amalric é um ator monumental, talvez o melhor de sua geração. Mesmo em seus excessos consegue dar dimensões extremas e sutilezas sofisticadas a qualquer personagem que interpreta. Além desses predicados, ele tem a felicidade de escolher filmes certos e trabalhar com grandes cineastas. Tudo isso é necessário ser dito para podermos abordar seu mais recente trabalho como diretor, o irregular e ao mesmo tempo muito bom Turnê. O longa é movido pela paixão de Almaric em fazer cinema, pelo seu total envolvimento com material e as possibilidades que um filme oferece e por tudo que ele absorveu dessa arte ao longo de sua carreira. A intensidade é o que mais chama atenção em “Turnê”. Vemos uma obra feita por um autor que vive a urgência e o imperativo das situações dramáticas que cria.

Antes de tudo, Mathieu Amalric teve a coragem (ou necessidade) de abordar um tema, um universo já saturado no cinema contemporâneo: o mal estar e as angústias de viver, o fracasso e o sentimento de deslocamento existencial. Ele escolheu a história de um produtor com a vida (afetiva, profissional e familiar) em frangalhos que vai aos Estados Unidos recrutar um grupo de strippers/performers (que realizam apresentações definidas com “new burlesque”) e retorna com essa “trupe” para uma excursão por teatros e casas de show franceses. O primeiro acerto de Almaric está em formar um grupo de “artistas” composto por típicos losers americanos, mulheres estropiadas pelo tempo, pelo excesso de peso, pela ausência de beleza e pelas marcas do fracasso em suas fisionomias. Esse sentimento “loser”, esse fracasso que pode ser composto e transformado em ícone imagético pela simples apresentação física de corpos e rostos é algo muito tipo dos norte-americanos, é um sentimento, uma dor transformados em ícone pelo esfacelamento do sonho americano, pela ressaca dos anos 60 e pelo mundo atual dominado na marra por yuppies e grandes corporações. Embora seja um produto lapidado pelos estadunidenses, esses personagens são símbolo de sensação de desconforto que assola os quatro cantos do mundo. A união entre os freaks do new burlesque e o atormentado produtor francês proporcionam acertos e equívocos ao longa. Esses dois universos se completam, se repelem e ao mesmo tempo se espelham para compor o material dramático do mal estar que Almaric põe na tela.

As opções formais do diretor também trabalham de forma paradoxal. Temos a contradição entre cenas muito bem decupadas, em que o vigor e a urgência da misé-en-scene transmitem a força das situações e uma montagem geral que trava o desenvolvimento do filme. A edição intercala grandes momentos, com passagens fracas em que uma dramaturgia engessada e óbvia repete idéias sem nada acrescentar ao todo. A câmera trêmula, tão banalizada no cinema de hoje, tem papel de destaque em Turnê, ela serve para colocar o espectador em contato com o interior dos ambientes, ajuda a transmitir a sensação de desconforto dos personagens e dita o movimento rápido e labiríntico de um tempo estendido e sem sentido que envolve a vida daquelas pessoas. Esse recurso da câmera ágil se torna ainda melhor porque Almaric intercala essas sequências com planos estáticos e ângulos abertos em que a imobilidade e a angústia se tornam sensoriais dentro do quadro. O registro naturalista do cenário, das cores e da luminosidade também são acertos de Almaric, que constrói bem o espaço dos dramas e tira texturas extras da realidade que recria.

É impossível não lembramos Cassavetes (principalmente “O Assassinato de um Bookmaker Chinês”), desde as primeiras cenas e ao longo de diversas outras situações no filme. O problema é que os longas do diretor americano sempre foram homogêneos em seu brilhantismo, as situações dramáticas e a intensidade iam de cena a cena e dominavam seus trabalhos como um todo, sua misé-en-scene era impecável em cada quadro. Mathieu Amalric consegue em Turnê alguns ótimos momentos, mas que são diluídos por passagens fracas. O que temos é um filme de cenas, cuja força vem isolada em relação às demais. Almaric faz bom cinema em vários instantes de seu filme, Cassavetes é o cinema em (quase) toda sua obra.

A maior contradição de Turnê está na construção dos personagens. Individualmente apenas o produtor vivido por Mathieu Amalric apresenta múltiplas camadas, fato devido a opções de roteiro e ao talento do diretor como ator. O resto da trupe e demais figuras dramáticas são rasos, não têm a complexidade interior do protagonista. Por um lado isso prejudica o longa, mas por outro, podemos ver aí a intenção de Almaric em usar seus tipos como representação de um mesmo sentimento de angústia e fracasso. Esses personagens se aproximam tanto uns dos outros, que acabam por ressaltar uma mesma sensação análoga que contamina e potencializa o discurso do diretor. Isso fica nítido pela frequência com que a câmera de Almaric procura um rosto em ângulo fechado. São nesses semblantes que estão os comentários do diretor sobre a dor de viver e a ruína da alma. São essas faces materializadas em imagem que dizem muito e de forma intensa, nelas está a força inegável do filme.

Turnê retrata o sentimento de exílio no mundo. A trupe new burlesque está exilada em outro continente, enquanto o produtor é um exilado dentro de seu próprio país. É um questionamento de valores que Almaric faz à França, é uma constatação da globalização da angústia e da falta de pertencimento que atinge a todos e não poupa nem os franceses e o falso sentimento de superioridade existencial que foi criado por alguns de seus compatriotas ilustres. O filme de Almaric é um filme francês, pertence a essa que inegavelmente é a melhor cinematografia que o cinema já viu, mas que sabe dialogar com outras fontes e sempre seguir caminhos distintos, sem medo de arriscar ou se repetir. Para o bem ou para o mal.

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