VIPs:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Toniko Melo
Elenco: Wagner Moura, Gisele Fróes, Juliano Cazarré, Jorge D'Elia.
Duração: 98 min.
Estréia: 25/03/2011
Ano: 2010


Empate entre qualidades e falta de ousadia


Autor: Cid Nader

Se não há dúvida alguma pairando sobre o resultado de VIPs é de que o filme representa com toda a certeza ser fruto saído dos cuidados da produtora O2. O diretor Toniko Melo, afinal, que nasceu para o mundo das artes visuais lá na década de 80 pela produtora independente Olhar Eletrônico, seguiu seu curso de vida profissional pelas mãos da O2, produzindo peças publicitárias ou dramaturgias televisivas. O que quero dizer com "não há dúvidas" é que o modelo de finalização desse que é seu primeiro longa-metragem, além de ter todo o caráter de recorte bem produzido e cuidado com esmero de refinamento plástico (luzes sempre corretas, câmeras bem posicionadas e edição sem rebarbas), carrega uma pegada no dinamismo, na fluência narrativa, que o faz automaticamente aliado ao processo de construção cinematográfica que parece ter se tornado um modelo da produtora.

Bem antes de imaginar somente coisas negativas quando refiro ao modelo de produção (mesmo com uma certa estética pubicitária embutida na qualidade constatada - aliás, termo muito simplificador que facilita a vida de quem quer malhar alguma produção), quero tentar deixar claro que os trabalhos egressos de produção da O2 conseguem se amparar em algumas frentes da batalhas estéticas, que ultrapassam a "maldita" excelência visual bem cuidada, para alternarem na tela evidentes momentos de bom manejo das ferramentas, com jeito de quem entende de cinema.

Me atendo a esse filme mais especificamente, uma de suas virtudes reside justamente no bom equacionamento de algumas manobras técnicas em favor de enxugamento, e transformação, do texto literário original (o filme é baseado no livro "Vips - Histórias Reais de um Mentiroso", de Mariana Caltabiano, que recria um momento da vida real, capturado da história de Marcelo Nascimento, preso como estelionatário, e que teve como "maior momento" de sua vida marginal o fato de ter se passado por Henrique Constantino, um dos herdeiros da Gol Linhas Aéreas), o que cria dinamismo narrativo e fluência entre os campos, e difere o filme de peças curtas (as de publicidade) que amplificam as matizes visuais ao extremo com a intenção de passar em curto período a credibilidade que fará do produto filmado algo "indispensável" ao consumo humano. Outra virtude - e essa, decorrente de uma aposta que faz desse tipo de produção algo a se ficar com pé atrás, já que depende (ou imagina) da figura de um astro popular maior para angariar a atenção da mídia e do público fã - está na boa e correta atuação de Wagner Moura, que consegue passar pelos diversos momentos de seu personagem com justas mudanças de comportamento com o avançar dos anos, pelas situações tensas que aos poucos vão delineando muito de seu caráter, e pelas caracterizações físicas que transitam entre o ser jovem de cabelos longos e o de personalidade difusa que sofre ao não ter um chão real e consciente: talvez pudesse se pensar em overdose pelo excesso de tempo que Wagner ocupa no filme, mas é algo que, ao menos, perde impacto negativo pelo obtido de sua dedicação.

Por outro lado: tamanha competência em completar um filme com acertos, do modo que esse conseguiu, seria suficiente para elevá-lo ao patamar de algo imprescindível? Mais: mesmo que não seja justo (nem necessário) obrigar que surjam na praça obras obrigatórias a cada tacada, não seria justo o desejo de ver que a boa produção e o investimento em ferramentas concretizassem algo que ao menos triscasse alguma alteração estética ante o comum, ou essências minimamente diferenciadas no aspecto da construção? Porque, se o filme de Toniko Melo vai bem sob as camadas que evidenciei acima (e também bem ao colocar nuances no personagem que o afastam da simplificação de ser visto como um "marginal comum", acionando sistemas que conseguem entregá-lo ao público com boa complexidade de seus problemas psicológicos evidenciada), vai mal quando se nota que perfaz um padrão similar de trabalhos que parecem avolumar a cada ano, e que tem criado uma característica de cinema híbrido, que funcionará no mesmo patamar na tela grande ou na pequena - e isso por aspectos que evidentemente procuram evitar "sustos" no possível público consumidor.

Creio que as certezas desse modelo de produção são bem-vindas, pois denotam cuidado com situações que por muito tempo foram esquecidas com a desculpa de que o que importa é a essência do que se quer contar. Mas, creio mais ainda, que deveria ser usado com mais esforço em favor dessas essências que sempre fizeram a diferença no cinema brasileiro - para além do visual das figuras e dos locais filmados.

Leia também: