Cópia Fiel:


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Original: Copie Conforme
País: Irã/Itália/França
Direção: Abbas Kiarostami
Elenco: Juliette Binoche e William Shimell.
Duração: 106 min.
Estréia: 18/03/2011
Ano: 2010


Recomendo o texto do Oriente

Autor: Cid Nader

O trabalho de editar o site por vezes me faz ter de dar nó em pingos, pois por ter a obrigação de passar uma breve olhada nos textos que entrarão no ar – olhadas fugazes que tentam capturar algum equívoco ortográfico, ou ideias mais mirabolantes do que um mínimo imaginável – corro o risco de apreender âmagos de algum filme que ainda não vi, mas que pretenda: o que não faz muito meu estilo. Fernando Oriente, um da nossa companhia, havia feito sua crítica falando de Cópia Fiel já durante a Mostra Internacional de São Paulo do ano passado , mas atenção mesmo dediquei a ela após ter visto o filme, já nesse 2011, numa cabine, sem o risco de revelações anteriores e de saber das vertentes que orientaram suas opções para o destrinchamento do trabalho, já que era um que tinha certeza mereceria minha intenção de análise.

Filme visto, filme adorado (mais um grande, nesse ano que já abraçou as estreias de “Além da Vida” e de “Tio Boonmé...”) e a constatação de que o Oriente (o Fernando) construiu um belo e amplo texto, que analisou-o de modo bastante interessante e com todos os dados que fariam parte do que eu colocaria numa crítica minha. Quero dizer que analisar a estrutura de Cópia Fiel da maneira que desejaria, evidenciaria quase uma repetição. Mas como sou daqueles que não gosta de dar ao menos uns pitacos quando vejo qualquer filme comum (que dirá desse, então), resolvi colocar algumas observações de cunho bastante pessoal, que talvez ultrapassem as certezas que sempre deveriam servir de sustentação pilar para avaliações críveis, mas que triscam o risco que diferencia o crítico (ou o pretenso) daquele que faz resenhas.

Já de largada digo sobre o incômodo que alguns maneirismos me causam quando leio textos sobre filmes, principalmente partidos de pessoas que enxergam o cinema de maneira mais próxima do meu modo de enxergar (os amigos): é “diegese” aos montes pra cá, “rigor formalista” pra lá, e acolá o uso tremendamente banalizado do termo “misé-en-scene” – tem gente que coloca a expressão (termo) em todas as críticas que elabora. No caso desse “primeiro” trabalho internacional do mestre Kiarostami, não haveria como ligar o resultado do obtido ao executado por ele sem atribuir essa hiper-utilizada designação de origem francesa: não resta dúvidas de que o diretor iraniano “cometeu” mesmo uma “misé-en-scene”, e que o filme é fruto absoluto de uma execução totalmente amparada no domínio total dos elementos que ampliam o valor da expressão para além de um simples “dirigido por”. Só para constatar a maneira pela qual a condução dos elementos técnicos construiram o todo – a excelência da fotografia trabalhando para valorizar e criar as ambiguidades cênicas e de “atuações”; o modo como os momentos foram alinhados sempre (e sempre) tendo em conta o que o visual circunvizinho valia e importava na ligação com trechos do “drama” em andamento; a certeza dos protagonistas e de alguns do entorno em cada trecho da composição visual (e o evidente resultado de condução de seus modos de atuação)... – já valeria a ida ao cinema. “Misé-en-scene”, na beleza e importância que deveria representar, é coisa possível a ele, ou a Manoel de Oliveira (diria que Cópia Fiel é o filme mais “manoelístico” de Kiarostami.

Mas há alguns outros elementos interessantes que me pareceram merecedores de citação nessa espécie de texto intruso que crio: fica evidente durante todo o tempo o quanto o diretor “cresceu” com o passar dos tempos – ele que já nascera grande (dizia que era por intuição, mesmo com nossa - a dos ocidentais - insistência em ligar seus primeiros trabalhos ao que se surgira fortemente na Itália do neo-realismo) -, a ponto de perceber seu lado culto ganhando potência e se embrenhando cada vez mais nas tramas mais recentes, para desembocar aqui num misto de compreensão de um “mundo novo” da arte invadindo e incitando sua sabedoria persa (que é um complexo culto tão possante quanto, e que por muito tempo deve ter sido sua diretriz); evidente, também, sua surpresa (talvez encantamento) com signos religiosos tão distintos quanto próximos dos seus (islâmicos, mesmo que não professados amiúde por ele), que renderam uma atenção belíssima aos sinos (às torres, às igrejas) e aos seus sons (talvez evocando em sentimento o canto/oração entoado pelos “Almuadem”, nos fins de tarde, do cimo dos Minaretes - nas mesquitas), e a observação encantada à história dos casamentos múltiplos sob a bênção especial de uma santa; tanto quanto é perceptível a sua eterna ligação ao deslocamento de seus protagonistas principais, de maneira aparentemente simplória e despretensiosa, dentro de um carro, mas que sempre renderam momentos importantes, e que, repetidos aqui, simbolizam de certa maneira sua insistência em buscar caminhos (nos tempos de Irã, talvez receio de ser cerceado) para se comunicar e explanar.

Termino – já que não quis simplesmente ficar calado -: há a bela crítica do Fernando Oriente a ser constatada, e mais um belíssimo filme (de um belíssimo realizador) em cartaz.

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