Em um Mundo Melhor:


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Original: Hævnen / In a Better World
País: Suécia/ Dinamarca
Direção: Susanne Bier
Elenco: Mikael Persbrandt, William Jøhnk Nielsen, Markus Rygaard e Trine Dyrholm.
Duração: 118 min.
Estréia: 11/03/2011
Ano: 2010


Filme de caras pálidas, para caras pálidas.


Autor: Cid Nader

Se havia dúvidas quanto à filiação de Susanne Bier ao famoso (graças ao bom Deus, já extinto) movimento “Dogma” (criado na metade da década de 90 lá na Dinamarca dela, que pregava a pureza e o afastamento das “facilidades” tecnológicas em prol de um cinema mais autêntico...), toda primeira parte desse Em Um Mundo Melhor não deixa dúvidas restando: e o pior, é que pela maior mazela que aquele instante deixou, que tem a ver com a utilização de uma câmera nervosa, tremedeira, que parece sempre em busca das urgências que não podem ser perdidas (diz-se até hoje que tal fato tem a ver com a utilização das câmeras leves digitais – naquele momento, talvez), e que entrega mesmo dor de cabeça e um pouco de tontura. Não acredito em razões razoáveis para tal exercício sendo repetido de forma tão à parte de um momento específico, mas acredito que tal fato já poderia ser usado como um dos alertas do que o filme representará ao seu final: algo realmente nada bom – e afirmo isso com certeza, mesmo tendo conversado com amigos que parecem ter gostado do que assistiram, no dia seguinte em que o vimos.

Susanne fez um filme estereotipado demais, querendo fazer crer nas condições de uma insanidade social vigindo em seu país semelhante à que graça num mundão maior e mais complexo. Ela traz à tona atitudes de juventude rebelde, de alunos problema (expõe no iníco o caso de torturas entre adolescentes - os bullings, que afetam social, psicológica e fisicamente os "mais fracos"), de pais problema (os que geram os adolescentes inconsequentes - podendo ser por "frouxidão" ou opções mais humanistas, ou dos que vem na contra-mão e incitam às soluções e confrontamentos com atitudes violentas como exemplo), de uma nação que pareceria (aos olhos de suas câmeras tremidas – elas acalmam com o passar do tempo, e mostram que podem filmar bem -, o que dá mais raiva ainda) um sonho de calma e justiça, mas que é retratada como local apoderado pelos males maiores do cotidiano mundial.

Criou uma trama que ultrapassa fronteiras, filmando na África momentos de uma guerra civil (insana como todas, mas com requintes de violência secular preponderante), observados por um médico dinamarquês que está lá por conta de uma ação humanitária, mas com um intuito real de fazer desse “ultrapassar continentes” uma imposição de seu olhar, um pito, como se fosse um alerta do tipo: “vejam vocês, meus compatriotas branquelos, o que pode gerar o desentendimento, e onde não podemos chegar em hipótese alguma”; ou, tentando ser mais condescendente em minha avaliação, fazendo desses processos de "invasão" em busca de auxiliar, uma tentativa de expiação pelos pecados passados que incidiram diretamente sobre esses povos socorridos. Faz desse médico (Anton) um elo de diálogo entre insanidades (na África como a salvação mais iminente; em seu país, como quase um “banana” pacifista e sem ações adequadas), faz das diferenças de violências “alertas” a serem alardeados.

O filme, aos poucos, no seu âmago que desejavelmente deveria ser complexo, acaba por instituir uma divisão quase física de tão clara entre o que a diretora tenta ao acusar, e entre o que tenta negar pelos exemplos imaginados. Quando infere na marra as "complexidades" de seu povo, o faz por viés bastante amplo, de soluções aparentemente muito mais ambíguas e difíceis para os dramas dos brancos seus: lá, ela intromete a xenofobia (há acintes e atos violentos contra os suecos), os dramas familiares de difícil solução (já que instalados em cabeças cultas e pensantes - que elaboram demais e dificultam soluções mais simples), as ações adolescentes de seres de um mundo bastante complexo e diverso. Enquanto, quando as lentes se transferem à África, a complexidade e preocupação mais sincera parede brotada somente do médico estrangeiro, pois os graves conflitos locais surgem e se solucionam (e isso se percebe pescando, já que ela não imagina estar se entregando, ou em "ato falho") com coisas tribais: que causam sinceros sofrimentos (nada como uma bola de futebol para amainar fugazmente a dor), mas que, aí sim podem ser resolvidas, causando o alívio necessário, com um "singelo" espancamento até a morte do "homem mau da vez".

O que quero dizer quando digo que ela "faz das diferenças de violências 'alertas' a serem alardeados" é que faz tudo com um olhar cinematográfico que pensa nessas possibilidades existindo mais como veículo de atração. O filme acaba apostando mais fortemente nas insanidades como um modo imagético ou temático de atração da atenção de um modelo de espectador – aquele que crê na humanidade indo ao buraco sem fim, sem retorno, já totalmente doente e sem volta para a saúde. Não questiono motes e ideais, ou ideias, mas questiono um modelo de cinema vigente que faz de “assuntos” sérios um modo de atuação estética – há exemplos disso no cinema tupiniquim, e muito no cinema mexicano. Atuação estética que deve rivalizar em estranheza com o assunto, para completar um pacote que deixe indignado quem quer ficar indignado, potencializado ao quadrado. Isso, vindo de um país desse tipo, me causa mais chateação ainda, porque parece pacote pra lá de esquemático, pra lá de boboca – já que deve “ser mais impactante”, deve pensar quem faz. Isso, trazido com alguns vícios oriundos do “Dogma”...

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