Lope:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Espanha/Brasil
Direção: Andrucha Waddington
Elenco: Selton Mello, Sonia Braga, Alberto Ammann e Pilar López de Ayala.
Duração: 113 min.
Estréia: 04/03/2011
Ano: 2010


Ando cada vez mais teimoso


Autor: Cid Nader

Não é à toa que alguns diretores merecem minha teimosia e relutância – isso ocorre em todas as instâncias da sociedade a das artes, e pode ser definido como “prevenção” – quando é anunciada uma nova obra sua: o fato é que realmente não deixo meus preconceitos falarem antes de constatada a novidade – confesso que é a mais pura verdade – e, por conta disso, vou a todos os filmes: mas acabo ficando um bocado mais chateado ainda quando a sina se reafirma. Andrucha Waddington já surgia com uma carga um tanto estranha pela sua ligação fortíssima à “Conspiração Filmes”, que surgia ainda na década de 90 com um cinema de tendência estética plastificada a mais da conta (dizia-se “estética publicitária), e a configuração de sua carreira como realizador de cinema – principalmente no campo dos longas de ficção – acabou por criar uma sedimentação estranha, num caminho pelo qual não tenho prazer de passar.

Agora, numa superprodução (incrível como seus trabalhos têm sempre “cara” de superproduções) de matriz espanhola – falavam, ano passado, até que poderia ser o indicado pela Espanha para concorrer á vaga do “Oscar de Filme Estrangeiro” -, falando de um dos responsáveis pela modernização do teatro (modernização que levou o teatro da simplicidade e aposta na atuação como seu maior trunfo, em favor das produções com grandes soluções cenográficas), no século XVI, o poeta e dramaturgo Lope Vega, parece ter novamente conseguido desenvolver o que imagina ser o cinema, com suporte e certeza de um maior reconhecimento internacional.

E o que será que ele imagina por cinema? Para mim, imagina a arte como campo ideal de grande exploração cenográfica (até parece que as idéias de Lope Vega sobre o assunto cairiam bem ao seu estilo de trabalho), entendendo que a obtenção de fotografias de grande e fácil impacto visual, se possível com um belo adorno e “arranjamento” dos cenários (não dá para negar que Lope ganhou uma reconstituição de época poderosa), são suficientes para preencher as questões principais da boa confecção dela: que tem a ver com a certeza de tratar-se essa arte aquela que deveria privilegiar as imagens como a sua maior e quase única razão de ser. Ele – e aí não entrando no campo de imaginar como ela imaginaria, mas falando em cima da constatação sobre os seus resultados – não percebe que a beleza estética entregue grandiosa, digerida e pronta, diminui a razão de se entender o cinema como bom quando trabalha bem nas captações e na edição, e cria uma bela “escola dourada” empobrecida, com as bases ruindo, com pilastras de baixa sustentação.

O filme tenta vender um tanto de incômodo e ousadia além da certeza do visual bem definido, com uma edição que enlouquece pela mesmice (as cenas de ação são cortadas a cada segundo, para costurar imagens desnecessariamente captadas de diversos ângulos), e com câmeras que fazem aquele joguinho bem boboca de enquadramentos que dançam, somem rapidamente do plano total, para logo se recomporem, “heroicamente”, “modernamente”, insípidos e ocos como modo de tentativas verdadeiramente esperadas.

Utiliza Sônia Braga fugazmente – só como uma homenagem estranha -, é bem feliz na escolha das duas protagonistas femininas principais, tem andamento complicado, e, por vezes, parece ter cenas que entraram na trama somente por um algum desejo dele de filmar cenas de luta de espadas (aí, volto a imaginar como ele imaginaria), que devem ter feito sua alegria lá na infância. Para públicos que adoram histórias antigas, imagens de calendário, ou que consigam aproveitar um pouco da história do teatro retratada por conta da história e dos personagens. Só para não ficar na pichação total: a última sequência é bonita e com música de qualidade.

Leia também: