Poesia:


Fonte: [+] [-]
Original: Shi
País: Coréia do Sul
Direção: Lee Chang-dong
Elenco: Jeong-hee Yoon, Hira Kim, Da-wit Lee.
Duração: 139 min.
Estréia: 25/02/2011
Ano: 2010


Ouvi gente falando que é mal filmado: bobagem!


Autor: Cid Nader

Como falar de um filme realizado por um cineasta que surgiu como autor professando independência no modo de formar sua obra, fortemente, em seu início de carreira, e num país (a Coreia do Sul) que tem se destacado por lançar uma penca razoável de bons diretores no mercado – conheço “Oasis”, e sei da fama dos outros três ou quatro que dirigiu -, e abandonou por um período a carreira para se tornar ministro da cultura em seu país? Pensando nos modos um tanto estranhos de seu povo se comportar e alertar contra o sistema e outras instituições oficiais, com suas atitudes exacerbadas e reações pouco “orientais”, digamos, e assistindo-se a esse belíssimo Poesia, coloco na conta da esquisitice o fato de ele ter topado a vida pública e parto para falar do filme.

Lee Chang-dong honra essa bela e nova tradição de bons filmes de seu país, de modo superior, com um filme que toca vários assuntos (na realidade, procura diversas vias para transitar suas inquietações), tendo como sustentação narrativa fortíssima a observação das improbabilidades humanas, das complicações que somente essa espécie terrestre consegue criar, e com ostentações de beleza que também são possíveis somente (quando criadas, não como dádiva de comportamento genético) partindo desse mesmo gênero, o humano. Na superfície da questão Poesia destaca de dentro da sociedade bastante complexa uma senhora sexagenária, Mija (interpretada fina e esplendidamente por Jeong-hee Toon – aliás, vale destacar já aqui a potência da atuação e o quanto ela possibilitou de capacidade dialogante para o filme), que tem como um “carma” o neto adolescente (“carma” por conta das atitudes típicas de seres nessa faixa de idade, com indolência, não reconhecimento de esforços dos outros para que possam tocar a vida, ensimesmamento, além de um ato – dele e de sua turma em relação a uma colega de escola que aparecerá morta, por suicídio, logo na primeira seqüência, boiando nas águas do rio Han - bem mais complicado, que servirá como o maior viés condutor da trama), e que descobre estar começando sofrer as complicações do mal de Alzheimer, ainda por pequenos esquecimentos.

Criada a trama, o que o diretor consegue para costurá-la supera de longe a possível opressão dela como “a” marca forte do filme, já que diversos “assuntos” se oferecem para ser observados, enquanto, através de uma notável e sensível apreciação, quinhões da sociedade coreana se revelam como os mais importantes objetivos atingidos. Perceber-se-á que essa história do país ser o que mais semelhança tem com o estilo cristão-ocidental de ser atingiu patamares mais amplos do que se poderia supor, e que o mundo adolescente de lá está tremendamente contaminado e afetado pelos piores exemplos, o que acabará criando a situação estranha e impensável (não fossem tantos os exemplos que vemos crescendo nesse nosso cotidiano) que levará uma simples garota a não pensar que um futuro poderia ainda existir.

O outro lado, uma tentativa de solução para o fato, com propostas pensadas pelos pais (pelos pais homens, para espanto de Mija, uma mulher afinal de contas, já na terceira idade, meio sonhadora, com alma e métodos meio deslocados na contemporaneidade, e bastante deslocados quando comparadas as suas ideias às de soluções machistas orientais), faz ver que a composição de sociedade tão diferente quando comparada às outras da região, ainda carrega signos de comportamento tão “desumanos” quanto as novidades estragadas importadas da modernidade ocidental. Lee Chang-dong isola a protagonista de todo esse amontoado de comportamentos, fazendo-a uma apaixonada por poesia, como que para explicitar, por um outro caminho de sub-compreensão - ou como uma outra das emendas importantes que costuram a trama -, que ela é um ser humano ainda teimando em “existir em beleza”, à parte das “obrigações” (de qualquer espécie, de qualquer religião, de qualquer sentido de julgamento), das imposições. O filme é belo e forte: porque explora os mais diversos aspectos do homem, não omitindo as “sujeiras”, ou as falhas, ou as “humanidades” (valendo lembrar que humanidades podem constituir coisas ruins, também); porque observa o entorno com lentes limpas, fazendo do aspecto ambiental um outro componente de ligação importante; porque denuncia mas não julga (somente constata que as coisas estão aí e existem); porque é sutil quando faz perceber que o substantivo é importante, que o verbo é importante (para quem se interessa por poesia e sofre por não conseguir escrever uma) – quando Mija sabe do mal que começa a atingi-la, ouve da médica que esquecer os substantivos é um indício desse início, retrucando com um sorriso entristecido. É belo e forte já próximo do seu desfecho, sob o som de um poema, com o olhar voltado para o rio, para as montanhas (para a Coreia, afinal), e com a imagem da garota, imaginada, antes da tragédia (uma coreana, afinal). E é mais belo ainda, e mais forte, porque nas cenas finais filma as coisas, crianças correndo, a natureza, por ângulos e dinâmica que afastam a cinematografia da modernidade, dessa “meio ocidentalização” própria da sociedade de lá, emprestando alguns momentos que remetem o país a seu lugar geográfico – são imagens que poderiam ser de um filme chinês, ou japonês, ou malaio, como se fosse uma dica, um pedido de volta.

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