127 Horas:


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Original: 127 Hours
País: EUA/Reino Unido
Direção: Danny Boyle
Elenco: James Franco, Lizzy Caplan, Kate Mara, Amber Tamblyn e Kate Burton.
Duração: 100 min.
Estréia: 18/02/2011
Ano: 2010


Cinema edificante, de linguagem artificial.


Autor: Gabriel Carneiro

Danny Boyle foi o sujeito que chocou muita gente nos anos 1990, com seus filmes sujos sobre junkies, jogatinas, desempregados, e afins, mostrando um mundo longe do ideal hollywoodiano de cinema até então em vigor – havia, na época, mais pesadamente, um gosto pelo edificante, pela superação. E não é que Boyle foi se enveredar por esses caminhos? Deixou de lado os esquisitos de “Transpotting” (1996) e de “Extermínio” (2002), para retratar um episódio na vida de Aron Ralston, um aventureiro, cheio de si, que adora escalar canyons. Não é um episódio qualquer, no caso, é quando ele sofreu um acidente e teve seu braço preso entre rochas, de maneira que 127 horas se passaram até que alcançasse uma solução.

O final não é mistério, já que o longa é baseado num livro do próprio Ralston relatando suas experiências. É sim uma história edificante, de superação. O problema é a linguagem com que Boyle opta por realizar o filme. Se a fotografia suja e o uso de ritmo frenético, com aspectos pop e hype, bem serviam aos seus projetos incomuns, o mesmo não se pode dizer das escolhas para um projeto naturalmente mais careta. Parece que o desejo de inserção no primeiro time de Hollywood, transformou-o de tal forma, que faz projetos mais comedidos tematicamente – e para não perder sua autoralidade (de novo o tal conceito de autor, sempre ele) rechaçou suas películas com uma coisa pop desnecessária. Já havia feito isso no super premiado “Quem Quer Ser um Milionário?” – um filme deveras ruim, mas não vem ao caso justificar aqui -, e repete nesse 127 Horas.

O longa já começa com a tela dividida em três, mostrando diferentes ângulos de uma mesma coisa, artifício desnecessário que só faz querer se aproximar à linguagem publicitária – o problema maior é utilização à exaustão: sempre que parece que Boyle desistiu dele, aparece novamente. A montagem frenética continua, mesmo que o filme se passe, quase todo, num buraco, ou seja, cenas muito picotadas, sem dar tempo de respiro ao espectador – o que é perfeitamente compreensível, já que, se considerarmos o desenrolar da história apenas, é extremamente enfadonho. Mas o pior aspecto dessa tentativa de modernidade de 127 Horas talvez seja a fotografia: a câmera, inquieta, se movimenta o tempo todo, de forma trepidante, à procura do melhor ângulo – ângulos convencionais, vale ressaltar -, quase como se quisesse empurrar a náusea para cima do espectador. Muito mais do que o fato de se mutilar, as opções estéticas é que provocam os tão comentados desmaios e enjôos nas platéias – que, se fosse com William Castle, usaria isso como forma massiva de promoção.

Os incautos talvez achem que vermos o sujeito beber urina e cortar um pedaço do corpo para sobreviver sejam choques suficientes, fazendo destoar do tradicional filme de superação. A questão é que o choque pelo choque de nada vale – o que é feito para chocar só explana uma visão mesquinha de um cineasta prepotente. Talvez, se Boyle continuar nessa linha, seja uma ótima forma de reavaliar sua carreira. Se “Transpotting”, por exemplo, for um filme para chocar, metade de seus méritos irá por água abaixo – e isso é muito triste de se constatar.

Nos últimos três meses, curiosamente, estrearam três filmes claustrofóbicos no Brasil. “Enterrado Vivo” é, de longe, o melhor, ao conseguir dar uma substância ao roteiro, que parece muito simples, sem buscar grandes inovações. Inclui-se ainda “Santuário” e este 127 Horas – talvez o mais nocivo, pela necessidade descarada de alinhar a história a uma linguagem pop descolada quase publicitária, gerando talvez mais seguidores.

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