Cisne Negro:


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Original: Black Swan
País: EUA
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis e Vincent Cassel.
Duração: 113 min.
Estréia: 04/02/2011
Ano: 2010


Aiai


Autor: Cid Nader

Pensava já haver superado completamente minha longeva pinimba com o diretor Darren Aronofsky (pinimba que ia além da teima que sempre nutri pelo seu exótico nome – é chato ser editor e pensar em escrever na correria aquele amontoado incongruente de letras, com a eterna obrigação de não poder errar para não prejudicar da boa imagem do site) à época de “O Lutador” (2008): filme no qual ele ameaçou indicar que poderia ser um realizador claro e concreto, e que parecia surgir como um sepulcro das pirotecnias e malabarismos estéticos/ocos que até então eram sua marca registrada. A má vontade para com ele se devia muito mais pela apreciação de seu cinema professada por uma parte considerável da cinefilia e da crítica mais “exigente”, o que me fazia questionar sobre se estaria sendo correto no modo de observar seu cinema.

Já teimei desde o início, lá com o “Pi” (1998), que seduziu muitos, sugerindo o incógnito de um monte de significações (quando as apresentava, sempre rebuscadamente camufladas de noções matemáticas e malabarismos visuais que impediam perceber, minimamente, se ele, filmava bem ou não), mas que me surgia como algo juvenil, esperto por impedir raciocínios fluidos e concatenados sobre o que se via na tela. Na sequência – ansiosamente aguardado pelos que o veneraram de cara -, emendou um torpedo bastante ridículo, “Réquiem Para um Sonho” (2000) no qual intentou (na realidade conseguiu novamente – não comigo, repito -, com o adendo admirado de “considerações lúcidas”, que vinham com um forte bojo psicológico, compreendedoras do “alcance interior” alcançado das mazelas psicológicas de viciados ou de devedores das regras sociais, que encheram a tela de som e fúria) falar da psique desajustada, com truques estéticos óbvios e canhestros, sonorizados por impactos emitidos agressivamente nas caixas de som, sob atuação inacreditavelmente (ou compreensivelmente) ruim de Ellen Burstyn (não me saem da mente as caretas dela no filme).

Tentado concluir essa breve análise de sua obra (sob minha estrita – de má vontade - ótica), em 2006 ele vem mais ao público geral, já que havia obtido fama razoável por conta do filme anterior, e entrega o inacreditavelmente artificial “Fonte da Vida”, que poderia ser resumido , visualmente, como um calendário cheio de informações visuais bregas para enfeitar paredes de budistas sem gosto, ou daqueles que adoram tudo ligado a meditações transcendentais (um filme exagerado na repetição esdrúxula da apropriação de um monte de sinais – algo bem característico, até então -, que deveria fazer qualquer ser mais razoável reavaliar sobre possíveis opiniões positivas nutridas quanto ao diretor e sua estranha obra). Mas eis que surgiu um OVNI no caminho, e ele impressionou positivamente pela primeira vez com o lindamente simples “O Lutador”, de 2008: um filme que realmente veio de modo estranho ao que ele preconizara até então, onde as vidas e os personagens eram a única razão de ser da obra, e onde de efeitos mesmo somente os machucados apresentados por Mickey Rourke (e aí já se nota uma bela vantagem, porque tais machucados eram fruto da antiga e boa técnica da maquiagem – feita a mão mesmo -, como um reflexo de que nesse trabalho havia optado pela verdade) - Mickey que, cada vez mais tenho certeza, junto com a “beleza de verdade” Marisa Tomei, foi o grande (ambos, talvez únicos) motivo para me fazer pensar que Darren tinha amadurecido, e que talvez devesse me render, partindo em busca de rever seus trabalhos antigos, para perceber em que momento havia me enganado.

Mas nada como a calma de um dia após o outro, para após ter assistido a esse novo Cisne Negro, ter como certeza maior e mais palpável que fiz um bom negócio e economizei alguns trocados ao optar por não alugar os primeiros trabalhos do diretor. O filme e a atenção na atuação em “controle remoto cara de bailarina sofredora” de Natalie Portman concretizaram da pior maneira possível a certeza de quão enganador e ruim é Aronofsky (“O Lutador” deve realmente ser um OVNI), do quanto ele imagina fustigar e investigar a mente humana, e de como é superficial (repito: juvenil) em suas conclusões – tentando fazer dessas compreensões rasas algo complexo, com construções estéticas tão atrapalhadas e grandiosas, quanto estéreis.

Pensar na figura de Nina (a bailarina que será escolhida, sabe-se lá a razão – já que a atuação e o esforço de Portman como “bailarina” não remetem minimamente a pensá-la como protagonista maior da clássica peça de balé –, como a central, pelo coreógrafo tarado e obsessivo vivido por Vincent Cassel) se fazendo de garota recatada e oprimida por uma mãe castradora (uma frustrada ex-bailarina vivida por Barbara Hershey – que aqui parece uma canastrona, tanto quanto pareceu Ellen Bustyn em 2000, o que leva a intuir que a culpa nos exageros de ambas provavelmente seja do mandante da coisa), tendo de enfrentar o desafio proposto ao ter de encarar o lado negro do cisne, e dela, (quem conhece o clássico de Tchaikovsky – aliás, é bom reforçar que tratamos de “O Lago dos Cisnes”, aqui), com a mesma careta de dor/angústia repetida e repetida, por todo o tempo, só não chega ser extremamente desgastante e enraivecedor porque a partir de um dado momento passa a ser risível. Uma atuação que, se bem explorada por diretor competente, poderia resultar marcante (no sentido positivo), já que é papel que deveria “extrair”, pois cutuca o âmago dos âmagos do inconsciente, remexe na questão da sexualidade reprimida, nas coisas do excesso de cuidado dedicado desvirtuando os rumos que deveriam ser os mais comuns...

Só que seria aliviar a tensão em cima do diretor ater a “malhação” sobre Natalie (que já ganhou prêmios pelo papel e deverá ganhar mais outros – c’est la vie). Quando digo juvenil é porque ele pensa em seus filmes com a complexidade de um adolescente em formação (passando, então, a tentar enganar pelo virtuosismo estético/técnico tão possante quanto oco): a criação dos momentos entre o branco e o preto, de forma quase matemática, mas pensando-os como metáfora às questões da bailarina, resulta canhestramente inocente – se fosse só isso, entendendo suas limitações, passaria, porém "pega mesmo" por conta da tentativa de se sustentar com aquela carga “me engana que eu gosto”, que é tão comum em seu trajeto de vida; a situação em que o coreógrafo tenta seduzi-la, ou quer ser seduzido por ela, e a conclusão subsequente, é inocentemente boboca e rasa; e a aposta máxima (muita gente se deixa enganar, é inacreditável) que se dá na suposição de uma fugaz relação homossexual, como evidente modo de catalisar por escândalo (difícil imaginar alguém nos dias de hoje chocado ou excitado, fora dos recantos moralistas ianques, evidentemente), acaba mesmo por revelar o quanto de farsa há no (ou é o) diretor, já que a situação se dá sob bebedeira, com motivação química ajudando, para, no final, se insinuar definitivamente como um sonho (é muito moralismo na hora de pensar que seria chegado o momento de uma das libertações buscadas).

Já que Darren Aronofsky é mesmo chegado a camuflar suas ideias pelas execuções técnicas, não vou negar que na tentativa de ousadia com a câmera na mão (lembra em alguns momentos o modelo de “perseguição” perpetuado pelos belgas irmãos Dardenne) conseguiu alguns bons momentos, e outros bem ruins; e que nas inúmeras tomadas amplas (quadros abertos e caóticos normalmente obtidos nas situações de ensaio) obteve resultados acima da média – os únicos momentos em que a perturbação e a alucinação encontraram reprodução (transporte) crível ao que supunha a “proposta”. No mais, um embuste, de um dos maiores embusteiros em atividade.

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