Um Lugar Qualquer:


Fonte: [+] [-]
Original: Somewhere
País: EUA
Direção: Sofia Coppola
Elenco: Benicio Del Toro, Michelle Monaghan, Elle Fanning e Stephen Dorff.
Duração: 97 min.
Estréia: 28/01/2011
Ano: 2010


Sofia encena o vazio com sensibilidade e ternura


Autor: Fernando Oriente

Sofia Coppola mostra, a cada filme que realiza um respeito e uma ternura para com seus personagens como poucas vezes se viu no cinema. Essa relação da diretora com seus tipos não significa que ela não seja ácida e crítica para com eles e com as situações e ambientes a que estão inseridos. Sofia consegue ser doce e cruel ao mesmo tempo graças a uma sensibilidade nata e a um talento puro em relação ao cinema e ao fazer de seus longas. A cineasta possui uma rara noção de espaço e sabe como fazer esses espaços dialogarem com tempo, com aquilo que já foi vivido pelos seus personagens e com o mundo que cerca seus tipos, mas não necessariamente se encontra nas imagens. Em Um Lugar Qualquer, Sofia demonstra mais uma vez que é incapaz de criar um plano insignificante, que domina totalmente o material e a forma que constituem seus longas e tira da misé-en-scene exatamente os efeitos que visa num constante processo em que esvazia o aspecto existencial de seus personagens para colocá-los em situações de conflito com seu real papel na vida. Esse conflito sempre surge sem o consentimento de seus tipos, Sofia conduz as situações e os dramas de forma contida, registrando atentamente as possibilidades e consequências das ações e repercutindo tudo com um uma impressionante capacidade de captar o ambiente e sua beleza contraditória.

Em Um Lugar Qualquer a diretora acompanha o cotidiano de uma estrela de cinema (Stephen Dorff) e sua vida apática e deprimente em um hotel mítico na cidade de Los Angeles. As imagens do astro deitado na cama, chapado de remédios e bebida, vendo de forma sonolenta a “apresentação exclusiva” que duas dançarinas gêmeas de pool dance fazem em seu quarto são carregadas de uma sensação depressiva crescente, em que Sofia leva o espectador a sentir todo o vazio angustiante que aquele personagem representa. Toda a primeira parte do filme é carregada por esse sentimento de desconforto, por um tédio que contamina cada espaço, cada ação e tudo aquilo que está nos planos e fora deles. Sofia deixa claro o quanto seu protagonista está alienado de tudo o que acontece em sua volta. Mostra-o frágil, se escondendo da vida em um casulo quebradiço cheio de loiras tingidas, serviçais simpáticos e pequenas atividades de estrela de cinema que enchem sua rotina de tarefas sem sentido. Ápice dessa construção de Sofia é a passagem em que vemos o ator em um estúdio de efeitos especiais, sentado sozinho em uma cadeira de camarim, com o rosto coberto de uma massa branca gosmenta usada na construção da maquiagem que irá envelhecê-lo em décadas. A câmera lentamente se aproxima do rosto de Stephen Dorff e os pequenos ruídos e silêncios que compõem essa atmosfera vão penetrando o plano e dão a exata conta daquilo que ele virou. É essa angústia incapaz de ser sentida pelo personagem que Sofia compartilha o público ao mesmo tempo em que enche de ternura a visão ácida que tem daquele personagem e da realidade a que ele se abandonou de forma involuntária.

São os silêncios entre os personagens que dão mais força ao filme, ao lado de uma preocupação constante em captar o sentido dos gestos de cada tipo. Sofia deixa os planos seguirem, estica as ações para que a realidade que recria seja sentida em todos seus movimentos. Outro ponto alto de Um Lugar Qualquer é a mudança de significação dos silêncios ao longo do filme. Quando a personagem da filha de 11 anos do protagonista surge, percebemos o amor que existe entre ela e seu pai ao mesmo tempo em que sentimos o quanto esses dois seres encontram-se distantes, incapazes de se comunicar e de expressar o sentem um pelo o outro. Os silêncios aqui passam a medida exata dessa situação. Após a mãe da garota deixá-la com seu pai e se isolar por tempo indeterminado, a construção da relação do pai com a filha ganha uma intensidade fortíssima, sem que Sofia abandone seus comentários críticos, nem a distância calculada que mantém das ações e muito menos a dor da existência vazia que imprime em seu protagonista e ao seu mundo. A ternura entre os dois cresce ao mesmo tempo em que o prazer de estar um a o lado outro toma conta deles. É notável a capacidade de Sofia em impregnar de ternura a maneira como registra contidamente a evolução de seus personagens por meio do comentário preciso da realidade dos gestos e dos vazios que existem entre eles. Ao mesmo tempo em que a afeição entre pai e filha cresce, os silêncios passam a se mais confortáveis e, na quietude do espaço, sentimos o amor entre eles aflorar.

Sofia Coppola controla o filme do começo ao fim. Se ela permite que as emoções se manifestem mais abertamente na parte final do longa, o faz sem consentimentos sentimentalistas. A força da evolução dramática se desloca sempre entre a acidez e a ternura com que a cineasta constrói a misé-en-scene e se amplia na precisão da montagem, que intercala situações distintas com o distanciamento exato para o aumento da significação das cenas de forma independente entre elas. Essa força isolada das sequências só amplia a intensidade do longa como um todo e serve de base da composição da dramaturgia desse belíssimo filme.

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