Lixo Extraordinário:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil/Reino Unido
Direção: Karen Harley, João Jardim e Lucy Walker
Elenco: Documentário.
Duração: 90 min.
Estréia: 21/01/2011
Ano: 2010


Quando pré conceitos impedem imersões às camadas mais importantes.


Autor: Cid Nader

Por conta desse documentário vou falar um pouco sobre coisa que poderia ter sido dita em alguns momentos ocorridosem festivais (o filme foi visto por mim no Ferstival de Paulíia de2010): me parece incrível como alguns modelos de avaliação crítica de trabalhos cinematográficos vem à tona, normalmente por discursos inflamados, após avaliações muito ligeiras e superficiais das primeiras camadas (do verniz) compreendidas como elementos inequívocos e únicos em filmes, geralmente, do qual os críticos que se manifestaram não gostaram. Dizia quando o vi na ocasião que me sinto por vezes um peixe fora d’água, por não compactuar com a maneira de avaliação crítica de muitos dos que estavam por lá – não querendo dizer que sou melhor, e nem me rendendo a suposta superioridade alheia, mas constatando que existem espaços enormes e vazios nítidos que nos distanciam no modo de priorizar o cinema. Por causa de Lixo Extraordinário, novamente pude perceber tal situação, de forma bastante ostensiva, em conversas e situações de reunião com uma quantidade maior de jornalistas e críticos.

O filme é tremendamente bom – com defeitos causados por imposição da produção que não chegam a afetar decisivamente seu desempenho já que ele se oferece sob muitas camadas de compreensão a serem sempre buscadas por quem queira ser sério em avaliações - e oferece muitas questões merecedoras de análise. Ao contrário, o discurso de quem não gostou dele, ia ao óbvio, que tecnicamente o classificava como filme de andamento muito certinho, quadrado, e para questionar sua essência, ia à mais primária das cartilhas, que não permitia admitir suas inúmeras nuances, fazendo com que o discurso caísse na mesmice da acusação de “paternalista” e “esquemático”.

Pra mim, pura bobagem de quem tem de se manifestar instantaneamente e ataca por vias guardadinhas nos arquivos – para mim, certo? Sinceramente, o que o artista plástico Vik Muniz (de quem tinha conhecimento zero, mas que pressentia – sei lá a razão – como alguém a merecer minhas dúvidas no mundo das artes) menos exercita nesse trabalho que o tem como um dos protagonistas principais é paternalismo. Ele trata os catadores de lixo (recicladores de material) do aterro sanitário do Jardim Gramacho (RJ) como pessoas para além do comum, percebendo nelas potenciais individuais e destacando tais individualidades no início de seu contato com eles (na ótica da edição ordenada pelo filme). Já de cara, isso exclui pensar no comportamento dele e na avaliação do documentário como atitudes que paternalizam os de lá. Nessas imagens dos primeiros contatos fica evidente que, mesmo sob condições das mais extremas e duras, alguns deles pensam na arte, querem juntar livros e fazer uma biblioteca, enquanto outros se revelam como grandes aglutinadores de pessoas em torno de ideias de melhoria das condições por viés político (criaram uma associação que se tornou poderosa). O modo como isso é exposto no trabalho evidencia um “assombro” impensável para alguém distante de lá das mais variadas maneiras, enquanto arranja o caminho para o desenvolvimento da idéia de Vik em participar de algum tipo de melhoria para eles, com trabalho deles, com participação deles, com mão na obra e sem choros ou olhares apiedados.

O discurso oralizado do artista é sempre na intenção de se colocar como um “vencedor” imigrado da quase pobreza, imaginando que possa ingerir diretamente, com grana mesmo, para tentar que as coisas do aterro passem a ser. Quando ele e um dos trabalhadores de lá parte para Londres para o leilão de uma das obras surgidas na empreitada (que durou três anos para ser concretizada – que foi feita com objetos recicláveis em grande escala, fotos gigantescas de alguns moradores servindo como modelo/base, e armações posteriores que geraram novas fotos, que por sua vez se transformaram na obra definitiva que viria a ser vendida), faz questão de deixar ostensivo que a intenção é a de faturar o máximo possível, em espécie. Não se aproveitou das belas e fortes imagens obtidas para benefício próprio (óbvio que recebeu o reconhecimento pelo concretizado como arte plástica) além da intenção inicial em fazer da empreitada algo de retorno em estabilidade para pessoas bastante carentes. Há atitudes nada camufladas, portanto, nada paternalistas – objetivas.

O documentário ser considerado esteticamente como algo quadrado parece também fruto de pouca vontade. Desde o início ele se oferece como algo que tem forte pé nos modelos que não escondem suas sub-confecções: quando inicia lá em Londres com imagens de Vick sendo filmado e falando de sua intenção em investir naquela região carioca alguns anos de sua vida, ou quando capta uma discussão bem pertinente (curta, mas necessária para fazer entender que havia muita preocupação no tratamento com aqueles seres humanos, onde Vick, sua esposa e seu companheiro mais constante de trabalho falam sobre o futuro dessas pessoas após “conhecerem o mundo do glamour”, por conta do processo todo, e quando se nota que não há certezas, mas atenção), o trabalho revela que foi roteirizado, desenhado, pré-concebido, e nada de modo disfraçado. Se ele caminha com linearidade (suficiente para ser “enquadrado”?) é porque já vinha se nutrindo de imagens impactantes e extremamente bem colhidas (feitas no lixão, com enormes caminhões despejando lixo tendo as pessoas sob o primeiro plano das lentes, ou pelas aceleradas, revelando o processo de construção das imagens, o que além do comum nesses casos cria um lento zoom regressivo, por exemplo) em quantidade suficiente para que seu lado “ousado” se manifestasse. Imagino alguém falando em estética da miséria (ontem não ouvi nada a respeito, verdade), e me antecipo diferenciando de maneira bem cirúrgica o trabalho dele na comparação ao de Sebastião Salgado, por exemplo, pelo fato de todo o obtido aqui estar voltando de alguma maneira para os seres que participam das imagens.

Há muitas possibilidades para se tentar entender esse filme – muito mais do que as poucas que citei aqui -, pela estética/técnica, ou pela sua essência, mas acho que dá para afastá-lo das acusações que ouvi ontem pelo “descaramento” que se constata o tempo todo: nada é camuflado, o artista conta suas intenções, se mostra em seus bons recantos, ri das reações quando alguém ameaça chorar, leva quadros de presente no final... Um porém: o início e o final do documentário acontecendo com imagens do programa de Jô Soares me pareceu coisa de imposição de produtores, que imaginam o “gordo” como um bom veículo de condução entre um trabalho de características tão complexas quanto foi a empreitada e o público.,br />
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