Biutiful:


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Original: Idem
País: EUA
Direção: Alejandro González Iñárritu
Elenco: Javier Bardem, Blanca Portillo, Maricel Álvarez, Rubén Ochandiano.
Duração: 147 min.
Estréia: 21/01/2011
Ano: 2010


A desgraça como espetáculo e catarse


Autor: Fernando Oriente

Alejandro González Iñárritu consegue, a cada filme que realiza se aperfeiçoar mais na “arte do embuste”. A partir da falácia com que lida com seu discurso primeiro (a prepotência mercantilista de enfocar o mal estar do mundo e o sofrimento humano), o diretor mexicano construiu uma grife internacional de “cineasta contemporâneo” que engana muito bem os incautos e neófitos e satisfaz aqueles que vêm no cinema uma manifestação plástica virtuosa e vazia e recheada de bons sentimentos em contraposição com imagens dolorosas e ocas. A mania (muleta) de montar seus filmes de maneira fragmentada, misturando histórias que forçosamente faziam alguma conexão constitui a marca de seus três primeiros longas de sucesso internacional: “Amores Brutos” (20000), “21 Gramas” (2003) e “Babel”(2006). Esse recurso caricato de fácil manipulação de público deu um ar “modernoso” ao seu cinema e fez com que ele entrasse no grupo de “jovens talentos latino-americanos”, grupo esse formado, em sua esmagadora maioria, por cineastas medíocres, de viés publicitário e que tratam o cinema como mercadoria de exportação chique. Desse grupelho, que se espalha pelo mundo filmando em diversos países com orçamentos cada vez maiores, Iñárritu é o principal expoente, seguido de perto pelo enganador número um do cinema brasileiro: Fernando Meirelles. Embora não filme longe de seu país de origem, o argentino Daniel Burman é mais um emblemático membro desse grupo de pseudo-autores.

Após essa breve e necessária contextualização, vamos ao novo trabalho de Iñárritu: o patético Biutiful. Se a desgraça humana já era matéria–prima de seus filmes anteriores, o diretor mexicano resolveu radicalizar (para pior) de vez. Em “Biutiful” ele abandona as histórias paralelas que se cruzam e cola de vez a câmera em seu protagonista Uxbal, vivido por Javier Bardem. Com ângulos quase sempre fechados em Bardem, Iñárritu desenvolve cenas e mais cenas em que o sofrimento, a miséria existencial e a falta de perspectiva vão assumindo tons e intensidades cada vez mais fortes. Nada na vida de Uxbal e nas daqueles que o cercam tem um mínimo de positivo, esperança e nem mesmo o desejo por essa esperança. Nada que não seja desgraça e dor aparece no libelo apocalíptico-publicitário realizado pelo mexicano.

Lidar com a dor de viver e o mal estar que atinge a sociedade como um todo é tema fundamental para qualquer artista com mínimo senso de engajamento, o mundo como está não tem nada de cor de rosa. O problema de Iñárritu e de outros diretores que fazem desses tormentos humanos um espetáculo é a forma como tratam seus temas, a maneira canalha como transformam esses sintomas sociais em “amusement” para massas que se aglomeram em cinemas e festivais para entrar em processo catártico com sofrimentos alheios encenados como tour de force. Essa catarse de tom publicitário surte ótimos efeitos para aqueles que querem entrar em contato com os problemas do mundo de forma distanciada e bem protegidos pela sala escura e a distancia que separa os sofrimentos projetados da real situação em que se encontram suas vidas.

Em Biutiful, como em todos seus longas, Iñárritu filma com mão pesada, impõe uma noção exagerada de mise-en-scéne e decupa suas cenas de maneira bruta e sem senso de fruição. Carrega nos tons escuros e na câmera trêmula para esconder o vazio dramático de sua encenação e usa a música, os diálogos frouxos e os closes para tentar inutilmente conferir sensibilidade a sequências pesadas e ainda enfia elementos metafísicos para tentar salvar o colapso de sua dramaturgia tosca. Não bastasse isso, o diretor mexicano coloca Javier Bardem em situações de claro over acting na intenção de usar um grande ator para salvar a falta de complexidade de seu filme e a falsificação grosseira com que constrói seus dramas. Os outros personagens são simplesmente vazios, incapazes de oferecem a mínima textura e misturam-se com a inércia que conduz o filme. Com Biutiful, Iñárritu consegue maestria no ofício do embuste.

É incrível a quantidade de situações de desgraça que Iñárritu enfia em um filme de duas horas e meia de projeção: pai morrendo de câncer, separado de mãe bipolar (amante de seu irmão) e que vive em situação de pobreza e explora imigrantes ilegais. Chineses ilegais na Espanha que vivem em semi-escravidão, africanos que vendem produtos falsificados e drogas e acabam por serem expulsos do país deixando mulheres abandonadas com filhos recém nascidos. A tudo isso se some cenas grotescas como Uxbal tocando o cadáver do pai, morto sem que ele pudesse tê-lo conhecido, antes de esse ser cremado porque o cemitério onde estava enterrado vai ser demolido para a construção de um shopping. Não, a imaginação e a capacidade de transformar desgraça em espetáculo de Iñárritu não conhecem limites.

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