Tio Boonmee,Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas:


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Original: Lung Boonmee Raluek Chat
País: Esp/ Fra/ Alem/ RU/ Tailândia
Direção: Apichatpong Weerasethakul
Elenco: Thanapat Saisaymar, Jenjira Pongpas, Sakda Kaewbuadee.
Duração: 113 min.
Estréia: 21/01/2011
Ano: 2010


Cinema fluido e de encantamento

Autor: Cid Nader

Não sei se é porque é a arte para a qual mais desvio meu tempo e atenção, mas sempre carrego comigo a certeza de que o cinema é a que mais se reinventa, de onde mais surgem tentativas diversificadas de transformações ou recriações de modelos narrativos, sem que atos como esses signifiquem algum tipo de agressão extremada às ferramentas e aos espaços por onde um filme deverá ser apresentado: sem embicar na direção da videoarte, vale notar que toda e qualquer construção fílmica acaba por merecer a telona como sua matéria de transitamento das imagens, e depende das caixas de som (simples assim) como a outra ponta onde se descarregam os ruídos (falas, músicas, barulhos...), como o outro elemento/complemento binomial. Quando digo que é a arte que se modifica dentro de suas características físicas (obviamente que há os avanços tecnológicos e que até o jeito de captar e transformar tudo em filme sofreram modificações brutais) faço pensando que as ousadias inferem diretamente em âmagos discursórios, em desejos de transmissão de “recados”, em alguns modos imaginados para a transposição do obtido no material que será visto, mas sempre a partir de uma cadeira, projetado ou refletido, com a estrutura secular inicial mantida intacta. Outras artes – mesmo quando ousadas por motivos similares -, tem ultrapassado a gênese material onde são apresentadas como sua maior intenção de provocação, descaracterizando um bocado o que seria a ligação atávica das pessoas com ela: basta ver o que a pintura já fez ultrapassando as telas para instalar-se em materiais e locais “inusitados”, ou o que teatro tenta ao inverter o sentido do espetáculo entregado quando coopta interação com o público, ou quando vai a balsas, ou a edifícios... Nem sei se é ponto positivo o cinema insistir em depender de suas gêneses materiais, mas me admira que o faça, e mesmo assim sempre surgindo se transformando.

Num texto meu há um tempo, aqui no site, lembro de terminá-lo aclamando, feliz da vida, a novidade de um novo cinema extremo oriental que estava tomando a vez com grandeza, inventividade e simplicidade, até aconselhando jovens realizadores para que mirassem tal novidade afim de não parecerem peças de museu. Pois bem, de muitas dessas promessas se repetindo com qualidade em sua continuidade de carreira, volta a vez de comentar algo sobre o mais novo filme daquele que talvez seja o que mais esteja revolucionando, com muito pouca movimentação aparente, e com uma das mais notáveis revoluções dentro de muitas que fizeram marca fortíssima na arte. O filme: Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas. O realizador: Apichatpong Weerasethakul.

Da Tailândia, Apichatpong, parece cada vez mais reconfirmar que anda inventando um novo cinema (mesmo filmando, editando, e vendo seus filmes exibidos na tela grande), onde as coisas fluem de forma natural demais, sem que sustos possam ser algo a ser considerando como agressivo e incomum ao ser humano, onde animais falam com homens, e de onde fantasmas podem surgir de repente, para conversar amigavelmente com alguém próximo em vida, já que a vida não se encerra numa cápsula/corpo, que derroca definitivamente quando falece. Lá da Tailândia, com inegáveis atenções dedicadas e retiradas e referenciadas do que de melhor se fez e faz no ocidente (basta ver, sempre e sempre, a enormidade de países envolvidos nas produções de seus filmes), o diretor de nome quase impronunciável (mas que de tanto apego e admiração pelos mais cinéfilos das bandas de cá poderia ouvir esse seu nome falado em rodinhas sem nenhum titubeio) foi introduzindo "suas coisas", pelo "seu cinema": seu budismo, seu modo de relatar um setor do mundo onde a imigração ilegal importa tanto quanto os espíritos vagantes ou as reencarnações em animais, onde os tempos de guerra com os comunistas (ou ao lado) deixaram marcas que são processadas em outras ondas de preocupação; ou ainda quando entrega uma região com pés na modernidade (estranhando e se lambuzando dela, readaptando-a, reinventando – luzes artificiais de Natal durante cerimônias fúnebres ou em locais de karaokê, lanternas de luz branca, daquelas chinesas, para iluminar uma mesa onde encontros insólitos, para nós, ocorrem...), enquanto um futuro monge reclama não da pobreza de seu claustro, mas do fato de ainda não poder usar seu celular ou o computador como os mais antigos fazem.

Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas é mais um passo do diretor em direção da consolidação de um cinema único, que flui naturalmente (como já disse) – naturalmente até demais -, mas onde a celebração à boa execução se revela a cada passagem, em cada plano-sequência, nos modos calmos de interpretações, na calma na hora de utilização da música, no modo de suas lentes verem e captarem suas florestas (cenário de seus filmes que tanto é emblemático pela potência que emana de suas entranhas, pela beleza hipnótica que remete à criação – nesse, especificamente, há lá dentro dela a caverna-útero onde Boonmee morre/renasce, como um significado para lá de evidente de quão no interior de cada um ela está, e de quão dentro dela todos se sentem), onde costuma reiniciar as histórias que conta (quando as pessoas falam com bichos, quando as pessoas são reencarnadas em bichos), após o espectador estar certo de que já dominava o ambiente.

Talvez o ritmo possa ser comparado ao da meditação, mas Apichatpong não deixa, o tempo todo, de lembrar que esse local essencialmente espiritual está embebido de mundo. Tal fluidez (meditativa) vem sendo executada com rigor desde o início de sua carreira (confesso que não vi os seus trabalhos voltados à vídeo-arte – talvez me indispusesse com tais atos) e o prazer de retornar para mais um filme dele chega a ser inexplicável. A falta de seus trabalhoss causa algo como sintoma gerado por abstinência, e cada vez fica mais fácil “compreendê-lo”: ou estamos nos acostumando (como nos acostumamos com culinárias exóticas, aos poucos), ou ele anda um tanto mais concedente – mas de nenhuma forma poderia dizer que enfraquecido. Um cinema conceitual (poderia ser); um cinema criador de escola (deveria ser); um cinema que não deixa de encarar tudo com humor afinado (as situações que ele cria: a reunião na mesa, o tio Boonmee se expressando em francês, o sobrinho monge pedindo para tomar um banho antes de ir um lanche - se bem que, nesse momento do filme, vidas passadas ganham imagens e dúvidas), fazendo mais concretas as certezas de que tenta imiscuir suas e nossas tradições num clima de naturalidade narrativa.

E, especificamente aqui, há momentos de quase encantamento, de quase captura, como quando o macaco-fantasma surge anunciando quem é, e contando sua história; ou quando o fantasma da mulher cuida de Boonmee no caminho do final carnal (num momento lindo em que são observados por uma família de macacos-fantasmas); ou na singeleza de, num campo quente, mel sendo experimentado diretamente do favo... Quem não conferir – e nem estou exigindo que seja o melhor filme do mundo, nem mesmo o melhor dele – estará perdendo um bom trecho que os bondes da histórias costumam percorrer.

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