Tio Boonmee,Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas:


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Original: Lung Boonmee Raluek Chat
País: Esp/ Fra/ Alem/ RU/ Tailândia
Direção: Apichatpong Weerasethakul
Elenco: Thanapat Saisaymar, Jenjira Pongpas, Sakda Kaewbuadee.
Duração: 113 min.
Estréia: 21/01/2011
Ano: 2010


As artes e o mundo onírico


Autor: Janaína Navarro

Sempre me senti especialmente atraída pela obra “Etánt Donnés” do Marcel Duchamp, não apenas por sua repleção conceitual, mas também pelo caráter onírico de sua imagem. Há algo de misterioso e atraente no espaço onde aquele corpo feminino repousa - inconsciente, talvez; morto, talvez. É como um excerto de um mundo a ser explorado, a ser conhecido, a ser sonhado.

Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas é como uma entrada a este mundo, a um universo onírico e natural. Ao adentrar na gruta uterina de Boonmee, a começar pelos planos emoldurados pelas rochas, não me foi possível tirar a memória do “Etánt Donnés” da cabeça. Mas não é apenas essa perspectiva de estar espiando um mundo encantador por um buraco que se conecta à sensação evocada pela obra de Duchamp. Apichatpong consegue dar uma continuidade móvel à absorção calma e cuidadosa pelos componentes daquele cenário maravilhoso, tão real e onírico, ao mesmo tempo. E nessa continuidade, a "queda d'água" ganha uma faceta sonora - que poderia ser quase inferida intuitivamente na obra de Duchamp - que conduz nossos sentidos. A presença da água na natureza por si só sempre me remeteu a um certo idílio, e é extremamente bem trabalhada por Apichatpong.

"Tio Boonmee" é como um mergulho. Em determinado momento, até de forma quase literal - no plano final do segmento da princesa feia com o bagre. É quase preciso prender a respiração, e impossível não terminar a cena num longo suspiro, numa retomada de oxigênio e fôlego. É um momento no qual Apichatpong provoca uma capacidade quase esquecida da videoarte: essa capacidade de tragar o espectador para uma experimentação fenomenológica da imagem (e do som), da imagem que te toma e te suga para dentro dela, sem importar, neste momento, seu contexto ou seu significado. Apenas a força da imagem, que te domina completamente, sendo a única fonte de luz dentro do ambiente escuro. Algo que me atraía de forma instintiva, quando pequena, nas primeiras bienais que visitei. A potência de ser tomado pela imensidão das imagens, a forma com que elas reverberam em nosso interior mesmo sem necessariamente entender o conteúdo conceitual delas. A mesma força que me encantava no “Etánt Donnés” de Duchamp. E esta força desconcertante está presente ao longo de todo o filme. Há sempre um certo medo e ansiedade pelo que virá a seguir. Uma vontade de ser surpreendido, unida a algo próximo de um receio para com o desconhecido. Como a aparição do Macaco-Fantasma na casa de Boonmee, ao mesmo tempo tão calma e impactante: quase assustadora. A sensação de não saber o que nos espera num mundo, como diz Jen, "habitado por tantos fantasmas e imigrantes ilegais".

A naturalidade com que mundo dos fantasmas se mistura ao mundo dos humanos é de um encanto sem fim. Ao mesmo tempo em que há uma beleza nas relações, sempre amorosas e sexuais, entre humanos e não-humanos, não deixa de haver ainda uma certa crueza. O filho de Boonmee se torna um Macaco-Fantasma por copular com um exemplar da espécie, mas esta cópula parece ser fruto de um amor verdadeiro, de uma opção. Ao mesmo tempo, o bagre ilude a princesa, prometendo transformá-la numa mulher bela, o que não acontece - pelo contrário, a impressão que fica é que talvez a princesa esteja mais próxima de se tornar também um exemplar da espécie com a qual copula. Há ainda a relação de Boonmee com o fantasma de sua falecida mulher, que termina no momento que precede a morte de Boonmee: um momento extremamente poético, cheio de uma estranha sexualidade latente, no qual Huay pega a mangueira do dreno de Boonmee e a abre, deixando o líquido escorrer pelo chão da gruta.

"Tio Boonmee" é a continuidade mais que perfeita a “Mal dos Trópicos”. É um diálogo, uma continuidade e uma imersão ainda maior num mesmo universo.

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