As Viagens de Gulliver:


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Original: Gulliver's Travels
País: EUA
Direção: Rob Letterman
Elenco: Jack Black, Jason Segel e Emily Blunt.
Duração: 93 min.
Estréia: 14/01/2011
Ano: 2010


Só Jack Black salva?


Autor: Cid Nader

A imagem de Jack Black nas telas vem ganhando forma icônica e referencial a um modelo de filme despojado de ações e textos mais elaborados ou pretensiosos – o que pode ser um bem, tendo como exemplo seus papéis em “Escola do Rock” ou no anterior ainda, “Alta Fidelidade”. A figura do ator vem sendo criada 0 fortalecendo a forma – por uma sequencia de papéis que parecem querer aproveitar o reconhecimento para segurar um público que logo pensa em seu modelo de desempenho, angariando de quebra outros públicos que um dia ouviram falar de suas performances. Mais iconicamente ainda, a ligação de sua figura - nada avantajada em altura e bastante roliça para os padrões “normais” exigidos nos galãs norte-americanos - ganha mais referência ainda quando se pensa em seus desempenhos como alguém, de alguma forma que seja, ligado ao rock, à música, ao modo americano garageiro de cultivação da música pop.

Bem, posto isso, após a constatação do resultado desse as Viagens de Gulliver (dirigido com uma releitura bastante livre da obra literária do século XVIII por Rob Letterman – bastante bom quando dirigiu a animação “Monstros Vs Alienígenas”), o que mais salta à evidência é que a grande aposta do trabalho, para a atração de mídia sugestionável e público cativo, recai quase que totalmente na possibilidade catalisadora da figura do ator. Mais: da figura que se re-representa a cada novo filme em que atua. Mesmo tendo tido alguns desempenhos bem bons dentro dessa questão de identificação com um tipo, com um modelo (lembrando que ele tem mesmo uma banda, e sua identificação e modos de cenas desenvolvidos imitando estilos de roqueiros não são tão distantes de sua realidade - inclusive de onde surgem os melhores momentos individuais do filme: os aguardados por uma boa parcela de seus fãs), já se nota no ar um certo desgaste pelo excesso de repetição, pelo talvez não avanço, o que incita asa cobranças na direção de: “será que ele não sabe fazer algo além disso”?

Fica assim: o filme, que também aposta de modo estranho - fraco, sem novidades, de maneira dispensável - no 3D (o que mais faz re-questionar as razões de tantas produções estarem sendo feitas no modelo – já que é cansativo ficar com um par de óculos desconfortáveis para termos uma ou duas sensações bem falsas de pedrinhas ou gotinhas caindo na nossa frente), desde sempre foi pensado para atrair o público do ator. Há uma evidente enrolação na “trama” à espera dos momentos em que um jorro de referências de cultura pop (mundo típico de Jack, para além de suas “encanações” com a música) podem ser alçadas como cenários, sequencias, piadinhas, instantes – isso se dá lá pela metade do filme, quando o gigante Gulliver já conseguiu enganar os pequeninos de Liliput se tornando herói e salvaguarda ante os inimigos, aproveitando o momento para reproduzir naquelas antiguidades (eles vivem em tempos de Idade Média) os “prazeres culturais” de seu tempo. Nesses instantes, o ator “jorra” na tela toda sua versatilidade aguardada, fazendo perceber que o diretor Letterman havia se acomodado, esquecendo-se que havia muita grana gasta no cenário e no uso da computação, anteriormente, como algo que exigiria o retorno do investimento de qualquer maneira.

Não consigo perceber se algum outro modelo de público (além dos aficionados do ator) se encantará verdadeiramente pelo trabalho, possibilitando o retorno do investimento: um público de sessão da tarde pouco exigente, ou o das crianças – pode ser que em épocas de férias as mentes estejam bem menos exigentes do que já é o costume. Percebo sim, que como cinema mesmo esse As Viagens de Gulliver poderá ser evitado, sem que nenhum remorso venha a atemorizar na hora em que quem não o vir estiver indo para o túmulo (num futuro bem distante, espero). Ligar o filme às tradições ianques, “do derrotado que se supera e dá a volta por cima”, é muita chance para o trabalho e para as reais intenções dos envolvidos. Não costumo atrelar a obra cinematográfica à matriz que a inspirou, mas o livro é tão mais rico...

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