O Mágico:


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Original: The Illusionist
País: Inglaterra/França
Direção: Sylvain Chomet
Elenco: Animação.
Duração: 80 min.
Estréia: 14/01/2011
Ano: 2010


Singeleza conduzindo a uma jornada de descobertas


Autor: Gabriel Carneiro

Sylvain Chomet chamou atenção para si quando fez a bela e premiada animação “As Bicicletas de Belleville”, de 2003, sendo indicado inclusive ao Oscar. No longa, Chomet retratava uma corrida de bicicleta e a busca de uma avó por seu neto. Para tal, usava de situações absurdas, personagens fellinianos, traços ousados, cores de tom pastel, e muita nostalgia. Sua mistura pouco usual – muito diversa da técnica norte- americana de fazer animação – é repetida em O Mágico, talvez ainda melhor que o antecessor, um filme que versa sobre o fim da magia no mundo, visto através do olhar de um mágico.

O roteiro original, nunca filmado, de Jacques Tati, um dos grandes nomes da comédia, foi adaptado por Chomet, que deslocou sua história para a Escócia. O período nunca fica claro, exceto por se tratar de um momento em um passado distante, mas não tanto assim. É um tempo em que shows de mágica não estavam relegados apenas a festas infantis, mas às grandes casas de espetáculo. Quer dizer, o filme está situado nessa transição.

A singeleza do filme de Chomet está justamente em mostrar esse mundo de transformações, em que a magia do mundo se esvaiu, em que as ilusões e as brincadeiras deixaram de entreter o segmento adulto da população – cada vez mais sério e distante do lúdico -, que passou a ver a mágica com tolice para pimpolhos. O Mágico acaba sendo, assim, bem sintomático do nosso mundo, de nossa realidade, cada vez mais tomada pela velocidade, pelo trabalho excessivo, pelo mundo que hoje chamamos de adulto.

O mágico do título, um sujeito sério, que fala pouco e sorri menos ainda, para sobreviver, precisa arranjar bicos dos mais diversos, já que seus espetáculos em grandes casas são vistos por meia dúzia de espectadores, geralmente adormecidos, embriagados ou muito velhos. Sua peregrinação por diferentes cidades é sua jornada de descoberta: de uma realidade fria, leviana, consumista, marcada pelo glamour das coisas caras e tidas como chiques. Maior prova disso é a moça que encontra pelo caminho e resolve abrigar.

A nostalgia vem justamente do clamor pelo passado. O mágico é um homem infeliz, desacreditado, que segue sua vida de maneira um tanto metódica, porque o mundo o desacredita. Ele não é um astro de rock, as garotas não ficam ensandecidas em sua presença. Não que ele deseje o mesmo, apenas um mínimo de reconhecimento – e não para si, mas para sua profissão. Desacreditar o mágico não é desacreditar sua pessoa, mas a própria existência do que faz. Não à toa, é um mundo sem magia.

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