Além da Vida:


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Original: Hereafter
País: EUA
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Matt Damon, Cecile de France, Frankie McLaren e George McLaren.
Duração: 129 min.
Estréia: 07/01/2011
Ano: 2010


Difícil comentar à altura.


Autor: Cid Nader

Quando Matt Damon é filmado na mesa de seu pequeno apartamento, de lado (quase de costas) para a as lentes, fazendo um solitário jantar comum, e a sequência é emendada a uma outra, já no dia seguinte, onde seu irmão procura-o, sem encontrá-lo, estabelece-se definitivamente que o que se via sem dúvida até então como uma obra de Clint Eastwwod (por aspectos técnicos, pela já conhecida reinterpretação dos mesmos acordes musicais que constituiram uma grande marca no aglomerado mais recente de sua carreira...) carregara desde o início, em uma de suas três histórias, o personagem do homem (o macho do gênero humano) que no fundo é o mesmo solitário caubói do meio das pradarias, ou o astronauta veterano, ou ainda o treinador atemorizado pelas consequências da vida, que tem de tomar a decisão mais importante sem nenhum tipo de “auxílio” exterior, e toma: pois seu destino é traçado para ser aquele que sobreviverá, que se culpará, que agirá, será herói ou fraquejará, mas com a certeza de que tem de tomar as decisões com o peso das obrigações que sempre foram impostas ao fisicamente mais forte na espécie.

George (esse Matt Damon que poderia ser o Clint, se esse fosse ainda um jovem), uma figura que aparentemente destoa do histórico (visto superficialmente) desses machos “eastwoodianos”, cumpre o destino que o diretor sempre imaginou para os que forjaram uma nação que teve como base a força da família, o cuidado com os rebentos, tudo sob sua tutela, seu zelo, sua força (que teria de vir, mesmo de onde não se imaginasse possível vir), o que resultou em personagens tão trágicos quanto obstinados, e que tinham de tomar, num determinado trecho das obras do diretor, alguma atitude: mesmo se parecesse a de fuga, para a expurgação.

Num filme que fala de vida após a vida (é óbvio que o mote, a história, interessaram a Clint, tanto quanto óbvio, constata-se, é a transformação das bases do texto em terreno cinematográfico no qual ele sabe conduzir-se e onde transforma: de algum modo, criando uma obra que se alia – formalística e essencialmente - às outras de sua extensa carreira), não deixa de ser nítido que há essa conjunção familiar imperando, mesmo que desfragmentada, com personagens isolados em seus dramas, em países diferentes. Se George não é a figura do pai protetor (algo que se imaginaria numa primeira visada, quando se pensa na família como um dos pilares autorais repetidos), o momento quase final, em que integra-se ao sofrimento do garoto londrino Marcus (Frankie McLaren) faz com que aquela sensação de amparo, imaginada, dedicada de um pai para um filho extremamente desesperado (e Marcus tem um motivo tremendamente entristecedor para situar-se num drama comovedor – absolutamente dentro dos padrões que o filme dita para registrar diversos tipos de sofrimento: originados pela falta e anseio da presença), reproduz a figura do homem que se despe dos seus dramas, que se esquece de suas fugas, que abdica de si, para proteger (ou confortar) o ser ainda mais indefeso que é representado na figura de qualquer criança. Se não há a figura clássica da mãe, existe a figura complexa da mãe de verdade que sofre em seus problemas pessoais (drogas e bebidas), mas que age – quando instada – com maternidade latente e desejável, a vir de tal ser; e há a figura da jornalista francesa Marie (a bela belga Cécile de France), sobrevivida de um drama físico catastrófico, que lhe deixa restando (além da certeza de outras esferas onde a vida continuaria – o mote primeiro do filme é calcado nessa questão insolúvel e necessária para os que não se conformam simplesmente com o fim) na retina a figura de uma garotinha indonésia, escapada de entre seus dedos, para a morte. Ajuntando-se cacos e figuras, transpondo-se oceanos, pode-se chegar à formação da tríade familiar.

O incrível é que essa questão familiar até pode ser buscada como uma das facetas do filme, mas a obra de Clint, no todo, está reconfigurada e remontada aqui. Os signos do diretor são realinhados numa história que vai para além das preocupações “mundanas” de um realizador que passou a ser um dos grandes de todos os tempos, já há algumas décadas – na realidade, se pensada na questão religiosa da coisa, é importante notar que o diretor tem feito pequenas “avaliações” e imprimido fugazes pitacos sobre as instituições religiosas agindo em torno de seus personagens (quase sempre de forma desairosa – como acontece até de maneira um tanto inocentemente a mais do que o desejável, aqui) , e talvez isso possa ser “pescado” como um sinal da preocupação com o assunto, que se imaginaria algo bem razoável crescendo na cabeça de alguém envelhecendo. Clint já passou dos 80. Vê-lo tratar das possibilidades de vida após a morte causa estranhamento, mas perceber os caminhos por onde resolveu transitar, e os modos de construção adotados, somente reforçam a certeza de que se já era um dos maiores da história do cinema, a “veteranice” lhe tem emprestado dons e sabedoria cada vez mais admiráveis.

Além da Vida é um filme de mais de duas horas de duração, que não tem ação física importante (ouvi falar de gente reclamando que nele não acontece nada, e que o diretor está cada vez mais distante daquele das ações extremadas e violentas – o que só me faz pensar em como podem ser equivocados os modos de avaliação de alguém ou algo, mesmo quando os gostos convirjam favoravelmente para um mesmo produto...) – excetuando o inacreditável desastre natural no início, que mostra como se pode filmar bem, mesmo dentro de um milhão de possibilidades de truques oferecidas pelo uso da computação -, e que não permite em qualquer instante que se procure o relógio na busca de quanto resta para terminar. Tal fato só é possível porque o que se passa na tela foi realizado por alguém que, cada vez mais amadurecido, consegue parecer mais dominador dos elementos e ferramentas com que trabalha. O “filme é bem filmado” (tão óbvio quanto a gema é amarela), com calma, placidez e certeza, tão comuns quanto às que executamos para darmos singelas caminhadas, por exemplo. Eastwood, sabe-se, tem total domínio do ofício, e o tempo somente tem realçado o quanto tal domínio pode gerar certezas na hora da concretização. As lentes conseguem captar os traços dos personagens, jogando-os para as importantes reações anímicas que os movem em busca de explicações (ou fuga de como trabalhar com elas, no caso de George), causando simbiose que desemboca em seres que ficarão na memória, para muito além da sala de cinema.

Além da Vida é filme que flui na tela, no qual se embarca sem volta (captura as atenções pelas correções técnicas e estéticas, e aprisiona pela potência dos dramas): que busca ser cinema acima de tudo. O encontro no final, num boulevard de Londres, é retrato desse cinema filmando a vida; a música, que tem a origem de outros tempos, percorre todos os trechos do trabalho e ganha nuances e timbres, apropriados a cada localização geográfica, sendo que tal atitude acaba por ajudar a fluência entre os espaços utilizados; as interpretações (mesmo buscadas dentro do conturbado mundo da morte, da perda), poderosas na caracterização calma de cada personagem, evidenciam que viver a vida não é fácil. Talvez Clint esteja filmando como alguém que já pensa em deixar um fechamento artístico (“Gran Torino” aponta firmemente para isso) consonante com o fim que se aproxima: talvez. A certeza é que (por qual razão que for), além de quase não errar nos últimos muitos anos, parece ter atingindo uma plenitude inquestionável.

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