Fora-da-Lei:


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Original: Hors-la-Loi
País: França
Direção: Rachid Bouchareb
Elenco: Sami Bouajila, Jamel Debbouze, Roschdy Zem, Bernard Blancan.
Duração: 138 min.
Estréia: 01/01/2011
Ano: 2010


Abdelkader


Autor: Cid Nader

Rachid Bouchareb ficou tremendamente no mundo cinema com o sucesso e premiação de todo o elenco em seu filme de 2006, “Dias de Glória”, que na realidade poder-se-ia imaginar como um prólogo desse seu mais recente, Fora da Lei. Ele é francês de origem argelina, e como acontece em todas as famílias de ex-colonizados que buscaram as matrizes para uma tentativa de vida nova – enquanto seus países ardiam em conflitos e evidente pobreza -, um misto de indignação e rancor justificadamente preservado, por conta do acontecido nos momentos em que eram dominados, não permite, jamais, uma total integração com e na nova pátria.

No caso dos argelinos a coisa parece que “pega” um tanto a mais: não sei se por formação genética que incita mais ao confronto e às cobranças, mesmo que tão mais tardias, ou se porque os momentos que precederam e levaram à libertação foram muito mais sangrentos e penosos do que o que se imaginaria por “transições comuns”. É evidente que tal situação incomoda até hoje de forma bastante incomodante aos próprios franceses, que chegaram a montar um bom número de filmes (sem falar na literatura) tratando do assunto, sendo que um bom tanto desse montante vem carregado de tentativa de expurgação, com atitudes de benevolência e bondade que, no final, sob olhar mais apurado, só faz notar que a aura de dominação por “superioridade natural” se apodera do modo de contar as histórias de supostas desculpas.

Portanto, quando um verdadeiro descendente de lá toma para si a função de contar as coisas com as histórias ouvidas de quem viveu aqueles momentos na carne, muita coisa de verdadeiramente importante pode sobrar. É necessário dizer que aqueles momentos que levaram à libertação da Argélia ficaram marcados na história moderna como dos mais heróicos, dos mais sangrentos, com o obtido tendo vindo sob muito sangue jorrado, mas com fortíssima conotação política, num momento (isso, início dos 60) em que o mundo era muito politicamente “incisivo” no modo de reivindicação. A Argélia foi libertada, em boa monta, por atitudes de argelinos que passaram a agredir a França dentro de seu território, tendo com a formação da famosíssima FLN (Frente de Libertação Nacional, que percebeu a importância de juntar em torno de si as lideranças mais variadas e mais distintas da Argélia para fazer força de combate ao opressor e inimigo maior) a oportunidade quase inovadora, semelhante aos movimentos negros dos EUA, ou ao sindicalismo radical de parte da Europa, de direcionamento específico das questões quase seculares que sempre e sempre oprimiram e arrancaram muito.

Quando um descendente faz um filme como “Dias de Glória”, e agora esse não tão impactante (talvez um tanto viciado, com pequenos truques de atração que são absolutamente desnecessários em assunto de tanta empatia aos verdadeiramente humanos – algo a mais nas atitudes da mãe, algo a mais nas expressões faciais de raiva), mas mesmo assim bom, Fora da Lei, percebe-se que o cinema pode ainda cumprir uma função política que foi bastante importante num tipo de “escola” dos 70 (principalmente na Alemanha e nos que questionavam as razões dos americanos no Vietnã e Cambodja). Quando o filme traz a guerra da Indochina à tona, mais do que o espetáculo, ou a revelação de que um dos três irmãos protagonistas principais (Messaoud, o que botava a “mão” na massa) lutava para a matriz nela, cria-se uma metáfora (poderia ser estendia aos ianques, ou aos soviéticos) sobre a certeza do fim dos impérios. É bonita a história do líder libertário (tido como sanguinário pela parcela que pensava ser dona de tudo) Abdelkader. Contadas todas as favas e jogadas as não tão boas fora, percebe-se que o olhar do diretor sobre os três irmãos, paralelamente ao que ocorria (e que eles deflagravam, também, e de forma importante), acabou por compor um filme que vai ficar impregnado de forma boa: e o melhor, é que foi contando os heroísmos dos seus.

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