De Pernas Pro Ar:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Roberto Santucci
Elenco: Ingrid Guimarães, Maria Paula, Bruno Garcia e Denise Weinberg.
Duração: 97 min.
Estréia: 01/01/2011
Ano: 2010


Chanchada moralista


Autor: Gabriel Carneiro

Quem não é muito afeito às atuais comédias cariocas, extremamente televisivas, que têm pipocado e feito enorme sucesso, como “Se eu Fosse Você”, “Divã”, entre outras, já fica ressabiado com esse De Pernas Pro Ar só de olhar o pôster – ou assistir o trailer.

Estão lá todos os ingredientes: a comédia de situações, os personagens estereotipados, as brincadeiras com sexualidade, etc. É uma nova forma de se fazer chanchada, uma comédia popular escrachada, que busca o humor no que, muitas vezes, é chavão, para subvertê-lo. Infelizmente, as chanchadas atuais, as globochanchadas, como as alcunha o cineasta Guilherme de Almeida Prado, pecam justamente pelo excesso de moralismo que é impregnado, por conta do novo público: a classe média retrógrada que vigora como público cativo dos anos 2000.

De Pernas Pro Ar começa de maneira convencional e vai se tornando uma agradável surpresa. A busca da mulher viciada em trabalho em encontrar o prazer, mais especificamente sexual, evoca muito das pornochanchadas setentistas, que serviam justamente quase como uma forma de educar sexualmente a população. E, principalmente, erradicar os preconceitos com certas práticas. No longa, Ingrid Guimarães faz Alice, uma mulher recatada, que, ao ser deixada pelo marido e perder o emprego, encontra na personagem de Maria Paula uma solução para os seus problemas, o Sex Shop Sex Delícia. De fato, Alice não só perde o preconceito com os brinquedos sexuais da amiga e com a visão libertária que demonstra, como os adota e, mais, torna- se sócia na empreitada. Até aí, ótimo. Parece que, sim, será uma chanchada que não tenderá ao recrudescimento, como suas irmãs. Mesmo que, assim como o bom “A Mulher Invisível”, outro filme que explora o imaginário sexual, evite qualquer cena de insinuação sexual, mesmo de nudez.

Porém – e sempre há um porém, infelizmente -, o último terço do filme serve para desconstruir o que aconteceu até então, e o moralismo toma conta da película. A mensagem é: sexo e libertinagem são bacanas, mas o importante de verdade é a família; só quem não a tem passa a vida no prazer. Para não revelar o desfecho, atento-me à personagem coadjuvante da Maria Paula. Dona do Sex Shop, usa roupas curtas, que revelam suas curvas, adora os brinquedos sexuais e exalta a libertinagem, o sexo e o prazer. Mas, descobriremos, isso apenas ocorre porque foi largada pelo homem da vida dela, interpretado pelo ator fora dos padrões estéticos de beleza Charles Paraventi, que a deixou por achá-la muita areia para seu caminhãozinho. A perda do homem a fez apenas fazer um tipo, já que, na verdade, é infeliz. Isso só muda quando volta com o sujeito e engravida, deixando inclusive de administrar o Sex Shop, para aproveitar o tempo com a nova família.

O terço final do filme é degradante e põe tudo a perder por se prender a valores tão ultrapassados – não a família, mas a família em oposição ao prazer sexual -, que invalida todos os aspectos positivos até então mostrados. O que era o grande ponto do filme, já que, como comédia, “De Pernas pro Ar” não tem nada de extraordinário, com algumas poucas situações que se salvam – e que não estão no trailer. O cúmulo do moralismo talvez já esteja na própria história do título. Originalmente “Sex Delícia”, foi trocado para o careta De Pernas pro Ar, pois pesquisas indicavam uma rejeição ao primeiro nome. O mais triste não é o filme ser moralista – afinal, como toda chanchada, é feita para saciar os desejos do público -, é justamente o público voltar a um moralismo e caretice que há muito não se via.

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