Mate-me Por Favor:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Anita Rocha da Silveira
Elenco: Valentina Herszage, Dora Freind, Júlia Roliz...
Duração: 78 min.
Estréia: 09/09/2015
Ano: 2015


Mais do que "só" filme de gênero... Aliás: o que é "um" gêmero?


Autor: Cid Nader

Anita Rocha da Silveira, jovem realizadora, de carreira já razoavelmente consolidada como curta-metragista (no sentido de poder ser reconhecida por um estilo de trabalho – variante em qualidade -, onde a adolescência é retratada, especialmente a que abraça o mundo feminino, e bastante antenada ao que é desses tempos atuais em que vivem), vai a seu primeiro longa-metragem, como quase todo mundo que embrenha no cinema recente do país, e de maneira evidente concretiza essa mudança (jamais falar em salto à frente, pois curta-metragem é um modelo de cinema, com suas muitas complexidades a serem cumpridas, e diversidades que exigem atenção por vezes avessa ao que é da construção do longa para que se valha de formas quase infinitas afins de se obter o que há de muito interessante em seu tamanho/espaço) “utilizando” ainda parte do que foi o acúmulo de sua primeira bagagem, e com dinâmica narrativa ainda com vícios (o que não significa de modo algum, “problemas”) daquele formato. E isso, no final das contas, além de rescindir alento e esperança, ainda forma uma gama de filmes que com o tempo acabará por ter de ser reconhecida e mais atentada em bloco.

Temos em Mate-me Por Favor algo que por alguns aspectos, principalmente enquanto o filme se encaminha ao final, poderia fazê-lo compreendido dentro de um gênero (no caso, algo como terror, suspense), mas pensá-lo assim seria simplesmente dispensar todos os gamas de execuções tentadas: a que trata de escarafunchar o mundo adolescente e aquela “tendência atrativa” típica desse estágio que faz seus jovens roçarem a morte, o suicídio; ou a que é definitivamente ligada a trazer à tona toda a riqueza de elementos que fervem ininterruptamente nas veias dos adolescentes, quase que incessantemente, o que acaba por fazer de seu tempo de existência pareça curto para tanta ansiedade; ou ainda o flerte com a rebeldia que tentar afastar suas personagens de padrões normativos (pode estar na religião professada por uma pastora desses fúteis tempos midiáticos, que aprisiona um garoto, mas que coloca dúvidas na personagem principal, Bia; pode estar na quase ausência de adultos reguladores – e no caso de Bia, na estranha ausência de uma mãe que tange o tempo todo estar próxima ...), num irrompimento de atos que normalmente caracterizam muito mais fortemente os novos adultos – e isso se dá no desejo sexual sendo executado a pleno vapor, quase que de forma intempestiva, dominadora de sentidos que ainda nem estão arredondados nas rebarbas que o crescimento provoca. Há muito mais riquezas no conjunto do que o gênero (que também é uma riqueza, que fique claro), e isso impõe características díspares ao filme (como é de ser em quem tem conjunto de obras curtas), o que é sempre desejável, pois a partir de diversos veios se vai a um centro acomodador das questões.

Aqui há o handebol sendo um dos fatores (ou núcleo), como já foi em seu curta mais famoso. Há algo que leva ao que seria desse flerte com a morte/suicido (também há em outro curta), que acaba sendo um riacho de mais tensão, de mais tempo em tela, de mais abrangências: enquanto garotas vão sendo mortas violentamente (talvez antes estupradas) num ermo da marciana Barra da Tijuca (aliás, a observação da Barra pelas lentes de Anita a coloca talvez no mesmo patamar de questionamentos e estranhezas em que os adultos estariam, caso eles estivessem no filme: a Barra, para o filme, para Anita e suas personagens carrega todo esse intrincado incompreensível de razões que carregam os adultos, com sua “pretensa” concretude), acontece a necessidade constante, repetida, avolumando, das garotas do filme em se verem nelas, buscando coincidências de olhos, bocas, e sendo cada vez mais atraídas (muito mais do que repelidas) pelas incessantes notícias de mais uma morte. Há muito do que seria um passo adiante na idade se impondo sobre seus hormônios: e vemos garotinhas dominadoras, muito mais ansiosas pelo prazer (por qual seja) do que bocas e ainda instáveis garotos (esses sim ainda mais presos ao respeito às normas).

Num crescendo variado de situações, num variado imagético que inicia florescente e brilhante pelas constrições formalistas obtidas nas lentes e nas composições ambientais (em quadros criados, de músicas, em campo da escola, ou em natureza marciana – a da Barra durante o dia), para gradativamente encaminhar-se ao mais tênue, e mais ainda ao mais denso escuro, a diretora exercita muito de sua capacidade de manejo com as ferramentas do cinema, num avanço evidente ao que tentava já nos curtas (e não pelo maior espaço possível, talvez por amadurecimento), para a obtenção de fluidez que se faz bastante perceptível nos modelos e planos, nas “riquezas” diversas dos quadros. Tecnicamente, Mate-me Por Favor é uma boa surpresa. Mas, mais ainda, o que mais marca é a “compra” que as atrizes fizeram da proposta, o que facilitou demais a vida da história: as sequências imaginadas ganharam força com ajustadas interpretações. Alguns deslumbramentos poluíram um tanto a tela (o excesso de alguns “tempos” do irmão de Bia, as cenas do templo, alguns momentos da festa), o que pareceu um tanto à parte do quase “resto” todo. Resto todo que, para compensar, ganha mais ainda com o final: que pode ser gênero se sujeito assim quiser, mas que é mesmo muito pleno (como se um sumário) das revelações interiores que vão sendo insinuadas pelo filme todo.


Leia também: