Boi Neon:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Gabriel Mascaro
Elenco: Juliano Cazaré, Maeve Jinkings...
Duração: 103 min.
Estréia: 14/01/2016
Ano: 2015


Terá força para resistir ao mais pensar?


Autor: Cid Nader

Filmes que permitem restar dúvidas por tempos após visto, mais do que complexo por tais dúvidas resultarem de desacertos ou indefinições, por vezes carregam isso como virtude, ao jamais deixarem claro que sua história ou atos de confecção pretendiam tentar fechar ideias, conduzir as sensações do espectador. Cinemas que provoquem deveriam ter cota garantida no mercado – e nada contra o entertainment, desde que cinema à vera -, pois é daí que se percebe grau de conhecimento do realizador, já que gritar todo mundo sabe, fazer cinema comum alguns, também, mas provocar com ferramentas tão, digamos, precisas, para restar sensações que perdurem ainda em provocação (não em raiva contra a coisa ruim), poucos.

Desde que vi ao Boi Neon, de Gabriel Mascaro (isso, no Panorama da Bahia, ano passado), e passados muitos dias, provocação e dúvidas sobre o que restou (e restaram muitas sensações, muitas significações) são “palavras” de ordem quando repenso no filme. Com certeza absoluta há ali a provocação, que deriva do campo do mote: alçar a campo de compreensão maior uma trupe que transita por vaquejadas conduzindo animais (que serão, afinal de contas, maltratados para deleite de alguns, enquanto outros tratados como reis e rainhas, pois serão leiloados para milionários), e introduzindo suas ações na trama, no que transcorre em tela, ao modo de comportamento brutal dos bichos (os seres humanos dessa trupe agem de forma que parece moldada pelo tempo ao modo naturalmente brutal dos animais, e pelo modo de tratamento duro que esses humanos dedicam aos bichos como forma de trabalho comum, com mercadoria que é de ossos, carnes, pulmões e reações), por si só, na criação dos personagens e na exigência dura das atuações para botar mais fé ainda nessas composições, estabelece quase que todos os 2/3 iniciais num ambiente estranho, porém onde há de se viver, trabalhar, sonhar, trabalhar, comer, trabalhar, comprar calcinhas ou matérias para costura, e trabalhar um tanto mais; ambiente em que suor, bosta de bois e cavalos, dureza no trato (ou melhor, rudeza, já que há um sentido de união quase familiar na trupe), são o dia-a-dia, sem choros ou reclamos, a não ser o da menina, filha da “dona da trupe”, que se permite sonhar por verbo aberto (aliás, menina de impacto, um elo entre o automático das ações dos outros e um algo de infantil/pueril/sonhador; aliás, ela que ao lado do que sonha ser costureiro, outros sonhador, a seu modo, com quem mantém maiores tempos de escape no relacionamento, maior intimidade, e campo onde surgirá uma quebra quando um outro elemento que despertará desejo estranho surge – desvia-se de alguns sonhos, entra um outro modelo, e o afeto/liga de quem mais se permite menos brutalidade transfigura); há o tesão incontido, que quando permitido ao sexo se dá ou por desenfreamento do querer, ou na forma (forte, complexa, rara e bonita) de união impensável, muito das entranhas da psique, na rara cena da fábrica de tecidos, à noite, já quase ao final da jornada...

Com certeza absoluta há ali a provocação que se faz pelos modos de construção cinematográfica: a luz que permeia boa parte das sequências noturnas (na vaquejada, nos leilões, na imagem da mulher com cabeça de cavalo e corpo tentador, na fábrica citada acima) remete ao que é do onírico, daqueles sonhos que nos marcam pela vida inteira nos conduzindo por limbo físico, incertos, mas de iluminação lusco-fusco vinda do artificial, não da oclusão solar, e é luz obtida com intenções apropriadas para significar às lentes que a repassarão como marcas a não serem facilmente apagadas de nossas retinas; os intensos momentos de trato com os bichos, além de revelarem treinamento dos atores para lidarem com as situações da forma mais natural possível, só atingem o impacto imaginado porque lentes atentas e elaboradas são executadas para que o dinamismo e força dessas situações não desperdice uma rebraba sequer do entregue a cada quadro, gerando cenas e sequências que não permitem desgrudar os olhos da tela; ou as passagens que se dão entre a estrada e o acampamento, das arenas à cidade das calcinhas, nos “estábulos” onde se lida com os animais, os momentos que parecem tão desumanos com os bichos (por muitas vezes preenchidos com situações documentais), num ir e vir narrativo que é descontínuo e mesmo assim dialogante entre si; são pequenos exemplos dentro de um trabalho que é atento e concreto na construção com o que já surge concreto na captação, mas que não é de fluxo acomodado, e sim instigante.

Mas os dias com Boi Neon insistindo aqui nas lembranças realçam algo que sutilmente cutucava desde seu término, remoendo dúvidas sobre se muitos dos atos provocativos não seriam de outra origem, como confecção de momentos fetiche. O avançar da história entope o filme – quase num crescendo acumulativo – de sequências e instantes que parecem querer mais mesmo é satisfazer esse quinhão humano que refere ao que definimos superficialmente por fetiche (que para a psicologia cumpre funções de adequação dos cantões cerebrais, numa outra escala e alcance, mas com o mesmo poder do que é de origem fabular). E estão ali no filme de Mascaro figurinhas e situações que por vezes parecem de caderneta: a grávida que se encanta (e encanta) o Iremar (Juliano Cazaré, tratador e costureiro); o banho entre homens pelados, sob aquela luz que mais marca pelo trabalho, como ato que surge do aonde e vai ao nada; o tesão desenfreável da dona da trupe (Maeve Jinkings ou, Galega) diante da novidade que surge (e daí à cena da depilação); o encantamento súbito da menina; as revistas usadas para masturbação, corte e costura; a própria criação do personagem que surge sonhando ser costureiro num ambiente tão avesso...

Uma certeza de autoralidade demonstra continuidade de ações do diretor: a observação exercida sobre a burguesia que frequenta esses locais, retomando muito do que foi o início da carreira de Mascaro, quando realizou filmes que saíam da ordem natural de trânsito (“câmeras emprestadas”, depoimentos sequestrados), com ações estéticas em busca de trazer ao chão o muro que isola setores de poucos da sociedade brasileira quanto ao restante comum de sua população. No semiárido nordestino há uma produção em expansão, um polo industrial, os ricos que investem em fecundadores e parecem estar fora da lógica local, ou se sim, como os seculares exploradores. Num filme que inicia em “meio a” e encerra “em meio de”, pensado como um corte, tal atitude construtiva juntamente com os aspectos técnicos, com trazida sutil da questão dos domos do pedaço, e da brutalidade cedendo vagarosamente espaço aos afetos (e aí, nesse ceder, uma sacada, realmente, uma inquestionável razão de existir, tematicamente). Corte...


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