Homem Comum:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Carlos Nader
Elenco: Híbrido
Duração: 84 min.
Estréia: 10/09/2015
Ano: 2014


Pra falar do comum, um filme nada comum. E humano a não dar mais.


Autor: Cid Nader

É possível imaginar alguém que não faz parte de um núcleo mais constante – ou sanguíneo, ou de opção por “proximidades” necessárias – impondo-se com a mesma importância afetiva, a ponto de passar a alvo das lentes e atenção de um diretor de cinema por cerca de 20 anos? Sim, é a resposta mais facilmente perceptível na opção de Carlos Nader ao “adotar” um caminhoneiro, “gente das mais comuns”, fazendo-o de tamanha monta entre seus caminhos de vida que não se envergonhou de modo algum em entregar-se de voz e alma nesse seu especial e espetacular documentário. Entregar-se a um trabalho que se desnuda de modo incisivo como algo que jamais poderia representar ou ser construído sobre alguém de um mínimo reconhecimento mais amplo: é disso que se trata.

E bem na contramão do que sugeriria a regra comum dos últimos anos – mesmo trafegando na mesma via da emoção de matiz intimista -, Carlos espanta a todos com o outro entre os dois trabalhos superiores que estrearam juntos, à época do surgimento do filme (a 19ª do É Tudo Verdade), o curta-metragem Sem Título # 1 : Dance of Leitfossi,, porque retoma a inventividade máxima na elaboração, firmando a certeza de que tudo melhora quando é bem tratado nas estruturas. De maneira um tanto diversa da de Carlos Adriano, neste longa-metragem o diretor se coloca em voz de maneira constante e imprescindível: ficaria mais fácil ainda compreender o filme como situação a ser apresentada para poucos conhecidos, tamanha a exposição que ele não nega. E está justamente nos questionamentos de Nader a razão embrionária do projeto iniciado há quase duas décadas, com intenções e questões bastante atreladas a um instante da vida em que tendemos a não crer na sabedoria comum, nos atos comuns, sempre buscando nas complexidades temáticas e nas questões profundas sentidos para a vida e afins. Motivado por situações evocadas e precipitadas por e em Ordet, de Carl Dreyer, saiu às ruas (mais especificamente indo a postos de paradas de caminhoneiros) para tentar arrancar deles, resumidamente, algo sobre o que seria o sentido vida (“vida tão estranha”, intromete ele nas questões): buscou respostas a questões de enorme potência filosófico religiosas e encontrou Nilsão, que seria a pessoa a ser observada vez por outra nesse espaço de tempo subsequente.

O “documentário” é rico demais ao permitir por todo o tempo que a voz de Nader continue questionando a Nilsão, enquanto esse por todo o tempo insiste na sua compreensão mundana das coisas: espertamente, por exemplo, Carlos Nader corta tais sequências com um sutil grunhido seu demonstrando que entrega os pontos mais uma vez diante das respostas diretas e simples do caminhoneiro. Tal processo de corte potencializa o tom de intimidade entre os dois – que não é superficial ou artificial, bom que se diga -, ganhando importância na relação de trocas do filme, e justamente por ser processo de execução técnica na edição. Mas essa é só uma das riquezas técnico-estéticas do trabalho que, como citado antes, poderia ser definido como um tríptico (bom lembrar que, originalmente, “tríptico” remete a imagens: e bom reforçar que o cinema também), que abriga esse quinhão de processos “reais” e os de desnudamento das intimidades e dos afetos; utilizando numa segunda instância a ficcionalização, através de um filme criado pelo próprio diretor, falado em inglês e com personagens que antagonizam de alguma maneira os do filme de Dreyer, mantendo a questão da morte e do inconformismo diante dela (daí a questionar sobre o sentido da vida, um nada) como o impulso principal; e, no terceiro modo de sustentação, com a inserção de longos trechos do filme dinamarquês de 1955 servindo tanto como o grande reforço do que angustiou o diretor e propiciou sua ida à busca lá atrás, como uma espécie de campo de transição entre as outras duas práticas de construção, impedindo o que poderiam ser solavancos nas passagens de um momento ao outro, e estabelecendo o trabalho como algo de forte pendor híbrido.

O todo consegue fortíssimo modo de capturar e entregar, se impondo nas sensações do espectador: Nader por alguns instantes nesse longo período abandonou evidentemente o trabalho ao deus dará, mas instado pela forte relação estabelecido com o caminhoneiro o retomou por diversas vezes – situações, algumas inacreditáveis de tão tristes e da vida, e outras com cumplicidade suficiente para permitir algumas brincadeiras. .

O texto foi feito para o blog da Abraccine (Associação Brasileira dos Críticos de Cinema), como “missão” por ter presidido o júri da crítica que premiaria curta e longa nacionais naquela edição do “É Tudo Verdade”, em 2014. E quando cito o filme de Carlos Adriano lá nó início (e que se saiba que ambos os diretores tiveram funções um no trabalho do outro), é porque o balanço para o blog da Associação era mais longo. Portanto, imaginei que seria interessante colocar o adendo abaixo (parágrafo final de então), como medida de razoável de alguns modos como o filme nos motivou sem muito stress à sua escolha:
Portanto, de cara, numa primeira camada, os filmes de Adriano e de Nader se identificam na deslavada ostentação de afetos muitos particulares a cada um: e nessa chave se fazem parceiros ao modismo surgido nos tempos das câmeras ligeiras/leves. Ambos não negam em nenhum instante que o que os motivou à conclusão das empreitadas tinha no viés dos sentimentos o motivador maior. E mesmo assim, o que se constata é que são trabalhos de fortíssima atenção e cuidado nas questões estéticas, que não conseguiriam respiração fluida (e propícia de ir ao grande público) se não fossem fruto de muito afinco e dedicação à técnica (filmes, numa segunda camada de compreensão rasa, obtidos do processo de montagem: essencialmente, mas não só). Por diversos outros vernizes, entre emoções brotadas na tela e o cuidado no modo de fazê-las mais potentes (sempre com a mesma ternura que os trabalhos intimistas do modismo demonstraram nas ligações entre os autores e os alvos), nota-se que é possível sim atentar aos tempos, às necessidades de cada geração em elevar seus assuntos e seu modo de compreender o mundo, tanto quanto nota-se (e louve-se demais isso) que abdicar da qualidade pode ser aceito até um certo momento: momento em que Adriano e Nader talvez tenham elevado a qualidade a tal ponto que as exigências se façam mais exigentes e finas.


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