Sangue Azul:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Lírio Ferreira
Elenco: Daniel de Oliveira, Caroline Abras, Sandra Coverloni, Rômulo Braga, Matheus Nachtergaele, Milhem Cortaz.
Duração: 95 min.
Estréia: 04/06/2014
Ano: 2014


Já houve melhores Lírio.


Autor: Cid Nader

As imagens iniciais – todas as sequências ainda em PB, que iniciam no mar, num barco, adentram a ilha, revelam instantes que parecem até épicos pelo alcançado na construção dos quadros, pela potencialização dos elementos que os compõem (desde o mar, à mata, areias, lonas, braços, cordas, seres humanos ou o sol, por exemplo) – que desfecham quando ”volta” a cor e o circo montado na beira da praia se ilumina, talvez sejam o que de mais marcante resta após o término desse novo trabalho de Lírio Ferreira, Sangue Azul. Perto do final, no mar, no mergulho de Zolah (O Homem Bala) e Raquel – momento em que o medo de algo como vaticínio da mãe de ambos reassoma como o mais temido dos fantasmas –, os dois, observado com calma e placidez espantosas pelas lentes de Maurício Pinheiro Jr (que por boa parte do restante do filme parece ter excedido momentos de bom senso e praticidade do captado em opções de ângulos estranhos – difíceis na elaboração, mas sem muito resultado prático ou bom sentido estético), juntam-se na retina ambos os instantes (um em PB espantoso demais, e esse outro azul, calmo, quase fake de tão bem trabalhado) e o que resta mesmo do filme são sensações de imagens, entre as ótimas e as estranhas, relegando todo o complexo estrutural de personagens ambíguos de densos a manchas que têm ser buscadas lá no fundo da memória.

Obviamente que não poderia ser bem assim; obviamente que se falo assim é porque quero deixar bem marcado, mesmo sem ter de ir a extremadas elaborações, o quanto a carga dramática e seus passantes me pareceram passíveis de não serem aceitos como figuras que emprestaram algo a mais do que somente o olhar e mais o olhar. Saindo da sessão, notei pessoas próximas entusiasmadas, mas confesso que as situações afora os grandes momentos imagéticos (e mesmo os que me pareceram equivocados) não colaram ao meu gosto, num todo mais completo, não me mostrando liga, da maneira que foram organizadas; os personagens, no modo como foram compostos na idealização e concretizados pelos atores; as tentativas de choque nas sequências de transa (nas questões dos relacionamentos, nas questões dos envolvimentos, na maneira como foram filmadas – sim, plenas de carga e viés para causar sensação forte de sexualidade, mas parecendo mesmo que reforçavam tintas, em personagens já de tintas fortes, em que a composição da tela resultava inorgânica, forçada, com elementos mil a mais do que seria necessário para o preenchimento dos momentos...); os diálogos que por muitas vezes pareceram abafados, sem saber ao certo se era por deficiência da captação (creio mesmo que não) ou se o eram assim porque talvez nem importassem mesmo muito como coisas de ganho à trama imaginada.

O filme, na realidade, mesmo com situações atípicas sendo despejadas na telona, mesmo com sensações fortes por muitos instantes tomando o ambiente, pareceu arrastado longo, onde figuras teriam de ter seu momento de destaque (todas tiveram seu instante de “glória”), mas como se fossem esquetes inseridos e colados em sequência para completar o tempo de um longa-metragem, e não fundindo-se para criar, ao menos, sensação de fluidez: e tome narrativa interrompida, aos soquinhos, abortada e renascida. Não me pareceu o Lírio Ferreira do início de carreira, inventivo (coisa que ele tentou – ou fingiu tentar – aqui), sensível, e principalmente com total noção de construção cinematográfica, mesclada por criações e elaborações novidadeiras, de ousadia formalista, e muito respeito à boa gênese da arte (algo que se notava em planos clássicos de Baile Perfumado, no início deste daqui).

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