Os Últimos Cangaceiros:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Wolney Oliveira
Elenco: Jovina Maria da Conceição, José Antônio Souto.
Duração: 75 min.
Estréia: 28/05/2015
Ano: 2011


O nosso lendário: vivo.


Autor: Cid Nader

1) Sobre mitos e lendas

Num pais sem tempo de vida suficiente – ancestralidade de peso – para que possa contar em sua bagagem com mitos fabulares, ou personagens verdadeiramente lendários de importância, pensar nos cangaceiros e sua potência no imaginário e na formação do Nordeste parece ser das situações que mais remetam a serem eles compensação dessa falta. Imaginar a possibilidade de fixar essa “existência” em figura única, então, seria muito mais improvável ainda, não fosse ter existido por lá Lampião (e sua Maria Bonita como o feminino importante para compactar, para criar possibilidade de reconhecimento mais próximo ao povo em seus núcleos familiares), como exemplo máximo do que significa a lenda, o mito, o quase não humano: que existiu e sobreviveu quase como se fosse figura de cartilha, ao transitar entre a execração proposta pela oficialidade, que o impingia por bandido e matador contumaz, sem escrúpulos e sanguinário, e a idolatria popular, que percebia nele aquele que poderia enfrentar os mandatários e exploradores históricos de uma região sempre sofrida, como o vingador ideal e belo.

2) O ser humano, animal, afinal, e seu medo da morte
Notório, como a água deveria ser inodora e transparente, que a maior motivação do ser animal é o temor que tem da morte. O animal humano, por algumas peculiaridades a mais (como a de ter raciocínio mais elaborado – digamos), aliou esse temor à morte a outros medos que a paralelizam metafórica ou literalmente: passou a recear e tentar curas para as doenças, odiou a falta de liberdade – perder a liberdade, significava, em metáfora (por vezes literalmente), morrer.

3) Memória/histórias
E outra particularidade desse ser animal que raciocina é a de contar sua história: de registrá-la, codificá-la, armazená-la, escolher os meios pelos quais irá revelá-la transformada ou fielmente – sendo que se sabe que todas as verdades históricas têm embutidas em seu relato a opinião do que a formulou e fez pública. No caso de Lampião, os registros se deram por letras e narrações, quase que imperiosamente; por contares e passar entre as gerações (com evidentes riquezas e subjetividades que são desse modelo narrador), como o modelo de mais aspecto lendário/fabular/mitológico; mas contando com a assertividade das imagens em movimento, brotadas de empreitada tão insana quanto desbravadora do libanês Benjamin Abrahão, que se intrometeu no sertão, buscou o Cangaceiro, sua Maria e os outros cangaceiros, pra criar registro por imagens obtidas por filmagem. Era o que se tinha sobre aquele período de contorno tão importante para nossa conformação como civilização (como as mais antigas) que teria sua lenda.

4) Temos Os Últimos Cangaceiros
Wolney Oliveira, diretor de cinema e organizador do Cine Ceará, nascido em Fortaleza, mais do que os do restante do país deve ter sempre sido atingido de forma mais direta pela questão do mito e da história do cangaço. Beneficiado pelo acaso, por um relato, quando imaginava criar uma ficção para recontar o assunto viu-se diante de fatos, da possibilidade de pessoas que viveram o momento de forma direta, aproveitou-se de forma absolutamente competente com o que conseguiu organizar, e criou documentário que, no fundo, trouxe nomes e vozes para um momento tão distante quanto pensado impossível ser visto e ouvido relatado de maneira tão viva.

Como forma, criou maneiras interessantes para imprimir sentido de fluidez narrativa atraente para além do que já seria atraente o fato em si: trabalho que se nutre de fartos dados de arquivo, se aproveita de forma interessantemente vasculhadora de trechos das filmagens de Abrahão (já que lá dentro identifica pessoas; repetindo para contar alguma novidade; repetindo novamente para destacar momentos específicos...); usa os conhecimentos de estudiosos/escritores daquele instante (João de Souza Lima, Antônio Amaury de Araújo) para ilustrar eruditamente, criando espaços que contribuem com dados, nas divisões; veste as duas figuras principais com roupas que os cangaceiros utilizavam, num arroubo estético, criando respiro de teor meio lúdico, propício no aumento da cooptação do espectador.

Como resultado geral, se vale muito bem da possibilidade de usar os que foram “descobertos”, vivos ainda, Moreno e Durvinha (José Antônio Souto e Jovina Marina da Conceição, com 95 anos de idade, e que vieram a falecer em 2009 e 2008): que faziam parte do bando, fugiram amedrontados da morte e da prisão, indo parar em Minas Gerais, onde viveram por décadas, até perceberem que poderiam voltar “ao mundo” sem correrem riscos da perda da liberdade. O filme fala, e se constrói, por eles com mais certezas e verdades vindas de quem viveu ao lado daquele que se tornaria nossa lenda/mito (e aí pode-se notar que havia ali o Virgulino Ferreira, com nome, e como pessoa comum, antes da transformação nascida das necessidades de referências outras). Traz sua história “recente” – da vida comum, quando se esconderam entre as pessoas -, dos filhos que foram entregues para adoção, e intromete vida e calor às filmagens antigas, porque são comentadas as imagens por quem viveu o momento. E é competente ao se formular como matéria que ultrapassa o poder dos fatos, para poder ser compreendido como exemplificação muito mais plena do que é o poder que a lenda gera, do quanto a morte amedronta, e de que como a memória é importante - mas não imutável.


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