O Rio Nos Pertence:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Ricardo Pretti
Elenco: Leandra Leal, Mariana Ximenes, Jiddu Pinheiro.
Duração: 75 min
Estréia: 23/04/2015
Ano: 2013


Falha na ambição da homenagem


Autor: Cid Nader

Talvez o que mais complique a vida de O Rio Nos Pertence esteja na ousadia/pretensão/elaboração de tentar reproduzir de alguma forma a pujança/força/estardalhaço/graça/cobrança da personagem que Helena Ignez protagonizou em Copacabana Mon Amour (1970), obra de importância representativa (na significação, principalmente: significação como elemento idiomático representativo dos símbolos) rara e praticamente única, de então, nos momentos em que Rogério Sganzerla filmou e trabalhou na Belair. A personagem era a icônica Sonia Silk, que berra seu pavor da velhice, que perambula por um Rio de Janeiro de barracos e terreiros de macumba (de abandono e pobreza), que “cruza com o demônio e os pavores”. Sim: a personagem vivia algo que extrapolava os sinais clichês da cidade e dos seus “belos”. Mas pensar nela como pessoa atormentada e fechada em si por conta desses pavores parece contemplação fácil e acomodada sobre alguém que tinha mais nuances, e também muito humor/sarcasmo.

O filme de Ricardo Petti vem a reboco de uma jogada/sacada reverencial denominada “Operação Sonia Silk”, que conta com outro filme já concluído (a ficção de Bruno Safadi, O Uivo da Gaita), além do documentário Meta Mancia, mas parece ter se imbuído de somente um traço da personagem belairiana – o da angústia -, reduzindo seu escopo, que deveria ser de alcance resultante de infinidades a mais de características. Conversava com amigos após a sessão (crítica feita durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ano de 2013), que também mais criticavam, a ponto de jogarem na amplidão de observações toda a fotografia de O Rio Nos Pertence: talvez o que haja de mais importante aqui esteja justamente nas buscas que as imagens tentam (e quase sempre alcançam) em variação de resultados e técnicas para tal – as cenas de neblina são bem boas; as de clima que remetem ao terror profundo e sem origem, também; se as subaquáticas não chegam ser novidadeiras, não deixam de ser competentes; e é justíssimo na questão da emblematização entre o que foi perdido na cidade (a natureza, como um dos aspectos dessa perda), quando antepõe a atualidade de prédios e cristos intrometidos em meio a espaços que faziam da cidade o paraíso ideal para os seus de origem (no colorido das cenas filmadas) e fotos em PB de outros tempos. Mas, já aí nesse instante de beleza estética e boa elaboração técnica para o alcance do resultado, um outro drama se instala: que está numa repetição de Pretti (e de todo o cinema cearense, vindo num após a algo que surgiu já em Pernambuco) das cobranças ante avanços destruidores, que se é louvável pela obsessão no assunto (e louvado por mim), no caso deste aqui parece estar entregando um dispositivo de repetição com clima artificial.

Voltando à proposta. Todo o elaborado soa bastante à parte quando tenta se fazer reverência ao que originou a empreitada: na criação de diálogos fracos (a aula vista em trecho chegando a ser constrangedora; a atuação de Jiddu Pinheiro bastante abaixo e debilitada diante do que já fez por aí, causando cenas de estranheza no “duelo” com a personagem de Leandra Leal; as falas em inglês, artificiais, demais, ocas, no início...); nas atuações das duas protagonista femininas (Mariana Ximenes, de aparição veloz, especialmente), que não conseguem de modo algum fazer justiça (nem na bolação de suas personalidades, “monocromáticas”, sem vida) ai que fez a grande Helena Ignez lá atrás; na incompreensão das possibilidades de Sonia Silk, da vida, da rua, e não alguém de tormentos que referem a um mundo egoísta e interiorizado, como aqui. As situações de medos e sonhos (de gritos e arfares) até que impõem algum respeito, e seriam mais aceitavelmente críveis se num outro filme, numa outra proposta. Infelizmente, não resultou bem, no todo.


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