Casa Grande:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Fellipe Barbosa
Elenco: Karen Sztajnberg e Nina Galanternick.
Duração: 115 min.
Estréia: 16/04/2015
Ano: 2014


Força nas atuações


Autor: Cid Nader

Com certeza, o que mais surpreende nesse novo trabalho de Fellipe Barbosa é o desempenho de seus personagens, dos protagonistas imaginados – muitos -, que mandam bem por todo o tempo, com desempenho uniforme, constante, a ponto de segurarem bem o filme mesmo a partir de um último “terceiro trecho”, quando parece patinar enquanto se prepara para a tentativa do desfecho ideal, sem ser catártico, como todo o transcorrer indica será.

Raramente atuações e criações de personagens me parecem algo que tenha de ser levado entre as coisas principais no cinema: raramente. Tenho uma ideia – que nem é tão somente minha – sobre o cinema poder sobreviver sem que o roteiro ou até mesmo a grande atuação estejam presentes, já que o imagino acima de tudo como arte extremamente técnica, que só pode ser completa se as ferramentas de confecção forem manuseadas adequadamente, podendo valer-se sim de atuação e roteiro, mas sobrevivendo se esses “faltarem”.

Casa Grande é bastante bem filmado – bastante, na fotografia sempre interessante de Pedro Sotero -, quando momentos são ditados pela aproximação (imperceptível em seus movimentos) repentina ao personagem alvo do momento, ou em grandes instantes de abrangência do campo pelo seu olhar, quando todo o quadro captado acaba por ter mínimos detalhes vendo-se como elementos/objetos de importância na percepção de sua composição; tem bom ritmo ditado principalmente pela edição, no que seria algo como seus 2/3 iniciais (enquanto realmente cede nesse ritmo quando as situações ganham tentativas de mais adensamento, no instante em que todas as fichas estão dispostas e já se soube que o que é tratado refere à questão da burguesia decadente, com variantes em suas facetas, mesmo que todas com tons similares ao que ditam cartilhas de entendimento sobre burguesia e não burguesia). Falha quando resolve tentar adensar as opiniões gerais de compreensão social para fora do estrato base da história (os da família ainda conseguem carregar nuances mais sutis: quando o pai é o que é, mas variante entre um que pode estar em processo de fracasso e o orgulho que num certo momento da vida conseguiu entregar o que imaginava necessário aos seus; onde a mãe até pode causar emoção, quando se a notamos atrelada a um sutil apego à religião; em que filha de 14 anos é típica desse momento da vida, mais ensimesmada – até porque sente que ainda não a notam como importância a mais do que ser o bibelô da família -, mais pronta a explodir, como que do nada, para ser notada; e na figura de Jean, o pré-vestibulando com os hormônios em fase de ebulição máxima, que vive seu mundo e forma plena, e já com a consciência própria tentando brotar, se expor acima do que seria se só fruto dos seus...), imprimindo por vezes certo modo didático aos do entorno desse núcleo central, para reforçar suas origens e ordem de razões e certezas.

Vai bem em situações específicas, por certas passagens quase imperceptíveis diante de alguém mais desatento (aliás, incrível como a plateia à época do Festival de Paulínia ligou o modo “risada” e continuou rindo quando já estávamos bem distantes dos momentos iniciais, que até incitaram a isso), como quando uma das domésticas apela por perdão e, perdoada, questiona se também “não teria de perdoar pela atitude de invasão da patroa” (está nesse pequeno trecho muito do que decorre e sobrou do conflitos entre classes, do embate/relação entre patrões e empregados, dominadores e dominados), mas retoma muito de cartilha ou clichê nas soluções/interações com o motorista e algumas consequências de atos: por exemplo, no churrasco, na ida de Jean à periferia no final do filme...

Retomando o fio de parida: é filme onde Fellipe (que já conhecia dos tempos de curta-metragem) inicia de forma estonteante e precisa, com foco no que desejava, que despenca quando parece esticar a mais do que poderia talvez sustentar com mais segurança, mas que se vale demais das atuações para atenuar os problemas, e com certeza elevar (criando marcas) os bons momentos. É filme de técnicas boas, sim, mas onde o que acaba contando muito mais é a peça que respira, sua, sangra, chora e ri: ator/atriz.


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